As pessoas que bordam têm a resposta pronta. A grande maioria vai dizer que era para ocupar o tempo. Mas há uma parcela que vai falar em saúde mental.
Eu sempre soube bordar. Não porque alguém me ensinou, foi como se eu já tivesse nascido sabendo. Minha mãe não borda. Minhas primas, não. Só uma pequena parcela das mulheres da minha família borda; as outras foram para o tricô, o crochê e a costura.
Então eu mesma me perguntei: por que eu comecei a bordar?
E, como toda pessoa que não consegue buscar explicação na lógica, fui buscar nos símbolos. Sim! Eu abri as cartas do tarô. E a resposta que eu recebi desenhou a minha caminhada até aqui. Quero compartilhar com você, porque, assim como eu, talvez você precise que a espiritualidade lhe receite um pouco de bordado também.
Quando perguntei “por que eu bordo?”, as cartas que saíram na sequência da tiragem foram: o Julgamento, o Enforcado, a Força, o Carro e o Louco.
Tudo começa com um chamado (o Julgamento). Foi um despertar! Um desejo de criar, talvez vindo da minha ancestralidade, pois eu já pesquisava o caminho da memória, talvez tenha sido dos meus próprios ciclos, que eu já observava e registrava. O fato é que houve um reconhecimento de que eu estava sendo chamada, porque naquela época a minha vida estava em pausa (o Enforcado).
Houve um período em que eu havia parado. Eu me sentia presa onde estava, impedida de fazer o que eu queria de fato. Eram aqueles momentos em que você pesa a vida que tem e reflete as escolhas que fez e que te fizeram chegar no ponto em que você chegou… Eu refletia trabalho, carreira, vida social, relacionamentos… e crescia o desejo de sair do lugar de “quem só organiza memória” para “quem cria memória”.
Essa fase me cobrou muita coragem, paciência e, acima de tudo, resiliência (a Força). A carta da Força nos ensina que a verdadeira força não está em nunca cair, mas em levantar todas as vezes que for necessário. Ela nos lembra que a coragem não é ausência de medo, mas a capacidade de agir apesar dele. Foi a Força que me fez continuar quando ninguém estava olhando, até me sustentar na primeira exposição de bordados que fiz.
E a partir dela veio o movimento (o Carro): o controle consciente de que eu estava na direção certa. As pesquisas brotaram, os artigos acadêmicos se concluíram, as revistas publicaram meus textos, a exposição recebeu visitas e o conhecimento aprendido foi compartilhado e passou a germinar em outras hortas.
Por fim, bordar para mim foi um salto no escuro (o Louco). Eu comecei a bordar porque sim! Não sabia que viraria pesquisa, que se tornaria exposição, que ensinaria outros a bordar. Foi algo como quem joga uma mochila por cima do muro e depois precisa pular o muro para buscá-la de volta.
Hoje, o meu “Louco” é devir puro. Mas essa história não é sobre origem: é sobre atitude! Toda vez que pego agulha e linha, recomeço algo novo, fortaleço um ciclo novo. É um ponto que nunca é o último, porque sempre me reconstruo nessa dinâmica de ser quem eu sou de uma nova forma.
Por isso te convido: se você também sente o Enforcado agindo sobre a sua vida hoje, que tal olhar de uma nova perspectiva para onde seu Louco aponta?
- Foi usado o tarô RWS (Rider-Waite-Smith), criado por Arthur Edward Waite em 1909 e ilustrado por Pamela Colman Smith. Popularmente conhecido por ser o conjunto de cartas mais usado para os iniciantes.


Deixe um comentário