A agulha mais antiga do mundo

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Sabe quando você pega na agulha e se pergunta: de onde veio isso que estou fazendo? Pois é. A história do bordado é mais antiga do que qualquer memória escrita.

Entre os pontos ainda utilizados atualmente, o ponto cruz costuma ser apontado como uma das técnicas mais antigas. Mas antes mesmo de existirem tecidos, os primeiros humanos já uniam peles e couros com fios de fibra natural.

As agulhas eram feitas de osso, algumas com até 30 mil anos, do período Paleolítico. (Sim, você leu certo: 30 mil anos.)

Fonte: Site Wikimedia Commons/ Creative Commons. Foto: Axel Killian

Fonte: Site Wikimedia Commons/ Creative Commons. Foto: Axel Killian

Os registros arqueológicos mais antigos de trabalhos têxteis aparecem em diferentes regiões da Eurásia e do Oriente próximo as margens do rio Eufrates. Gregos, romanos, egípcios, chineses, indianos e persas bordavam como tradição. A própria Bíblia descreve cortinas bordadas em púrpura e linho. Na Idade Média, a Igreja Católica usava o bordado para ostentar poder: fios de ouro, contas de pérola, coisas caríssimas que só os sacerdotes tinham.

E no Brasil? Muita gente pensa que o bordado chegou com os imigrantes italianos. Mas antes da colonização, os povos originários já tinham uma arte têxtil riquíssima, especialmente a arte plumária na Amazônia e no Cerrado. A Carta de Caminha já descrevia, em 1500, “um pano de penas de muitas cores, maneira de tecido assaz formoso”.

No contexto da colonização portuguesa, muitas práticas indígenas foram marginalizadas ou substituídas por técnicas europeias ensinadas nas missões religiosas. Jesuítas, beneditinos e franciscanos ensinaram o bordado com agulha como parte do “projeto civilizatório”. Mão de obra indígena e escravizada, mas técnica europeia.

Com a Revolução Industrial, o trabalho manual foi desvalorizado. As máquinas faziam mais peças em menos tempo. Mas curiosamente, foi também nessa época que começaram a publicar revistas com motivos para bordar em casa, a maioria ensinando ponto cruz, o mais antigo de todos.

No século XIX, o bordado virou educação feminina. A lei de 1827 tornava obrigação do Estado educar as mulheres, mas na prática eram as instituições religiosas que ensinavam o bordado para formar boas esposas e mães.

Fonte: Reprodução do livro "Estrelas de couro: A estética do cangaço”.

No Nordeste, o cangaço deu outro significado ao bordado. Homens e mulheres do grupo bordavam suas vestimentas, inclusive os famosos chapéus de couro e embornais. Uma prova de que bordar nunca foi “coisa só de mulher”.

Fonte: Reprodução do livro “Estrelas de couro: A estética do cangaço”.

Com a internet, nos anos 80 e 90, surgiram softwares e máquinas de bordar. Mas as bancas de revista continuaram populares por muito tempo. Quem nunca viu uma “Agulha de Ouro” na banca do centro? Hoje você pode pegar qualquer foto e transformar em ponto cruz pelo site Pic2pat. As revistas físicas estão sumindo, mas a memória do bordado continua viva.

O bordado atravessou 30 mil anos. Já foi ostentação de reis, oração de freiras, resistência de cangaceiros e prisão doméstica de mulheres. Hoje ele volta às nossas mãos como escolha. A agulha é a mesma. Quem borda é que mudou.

E você, quando pega na agulha, sente a herança de quem?

  • BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Monges Beneditinos de Maredsous (Bélgica). 23° edição. São Paulo: Claretiana, 2015. Livro Êxodo, Cap 38, versículo 18. (Colé! Todo mundo tem uma bíblia em casa… mas se tá com pressa leia o versículo aqui)
  • BRASIL. Ministério da Cultura. A carta de Pero Vaz de Caminha. Brasilia: MEC, [s.d]. (Aqui)
  • PEREIRA, C. N.; TRINCHÃO, G. M. C. O bordado com ferramenta educacional no Brasil entre os séculos XIX e XX. Revista História da Educação, [S. l.], v. 25, p. e101244, 2021. (Sugestão de leitura aqui)
  • SOUSA, Juliana Padilha. Tramas invisíveis: bordado e a memória do feminino no processo criativo. Orientadora: Benedita Afonso Marins. 2019. 164 f. Dissertação (Mestrado em Artes) – Programa de Pós-Graduação em Artes, Instituto de Ciências da Arte, Universidade Federal do Pará, Belém, 2019. (Sugestão de leitura aqui)


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