Muito antes de Aleister Crowley conceber o Thoth Tarot como o conhecemos hoje em conjunto com Lady Frieda Harris, essa conexão já estava sendo tecida há pelo menos 150 anos.
Nosso ocultista doido (e quase preferido) não começou sozinho. Ele foi, na verdade, um dos últimos herdeiros de uma tradição geracional. Crowley fez o movimento de se apropriar, expandir e sistematizar uma semente que já havia sido plantada há muito tempo.
Desde o século XVIII, havia a tradição de chamar o Tarô de “o livro de Thoth”, e tudo começa com Antoine Court de Gébelin, em 1781. Ele foi um pastor protestante que associou o raciocínio da seguinte forma: o tarô continha símbolos universais, e o Egito era visto na época como fonte de toda a sabedoria antiga; logo, o tarô só poderia ser egípcio. Aqui perceba que Antoine não tinha nenhum respaldo histórico de que o tarô fosse realmente egípcio, ele apenas estava criando uma lenda que pegou… e pegou forte!
Logo depois de Gébelin, veio Jean-Baptiste Alliette, que adotou o pseudônimo Etteilla (seu sobrenome ao contrário, esse negócio de palavras ao contrário me traz um déjà vu em notas de rodapé). Ele foi o primeiro tarólogo profissional documentado de forma histórica por volta do ano de 1783. Ou seja, Etteilla ganhava a vida lendo cartas e vendendo baralhos de forma legítima. Ele abraçou a teoria egípcia de Gébelin e a popularizou, criou seu próprio baralho, que ele também chamou de “Livro de Thoth”, mas com o detalhe de que é muito diferente do tarô de Crowley.


Enquanto Crowley se baseou na tradição cabalística da Golden Dawn, Etteilla desenvolveu seu próprio sistema, mais focado em astrologia e leitura prática. Algumas editoras modernas, como a Lo Scarabeo, chegaram a republicar o baralho de Etteilla com o título “Le Livre de Thoth”, o que causa confusão até hoje. A versão Thoth Tarot de Aleister Crowley é publicada pela editora Ag Muller.
Depois temos Éliphas Lévi, por volta de 1850. Ele foi o responsável por sintetizar a tradição egípcia com a Cabala judaica, criando a base esotérica que Crowley depois herdaria. Lévi foi quem associou os 22 Arcanos Maiores às 22 letras do alfabeto hebraico e vinculou o Tarô à Árvore da Vida da Cabala. Com isso, reforçou a ideia de que o tarô era um “livro de sabedoria” vindo do Egito. Lévi foi o elo perdido entre a fantasia egípcia do século XVIII e o ocultismo sistemático do século XX.
Também é válido aqui fazer uma menção à Tábua de Esmeralda e a Hermes Trismegistus, porque isso é central para entender essa história.
A Tabula Smaragdina (Tábua de Esmeralda) é um texto hermético curto, atribuído a Hermes Trismegistus, que é uma figura lendária (uma fusão do deus grego Hermes com o deus egípcio Thoth). O princípio central da Tábua de Esmeralda é: “O que está em cima é como o que está embaixo”, o macrocosmo reflete o microcosmo.
Esse princípio se tornou a base da cosmovisão hermética, que influenciou a Cabala, a alquimia e, por extensão, a interpretação esotérica do Tarô.
Os ocultistas do século XIX acreditavam que o Tarô era uma materialização visual dos princípios herméticos contidos na Tábua de Esmeralda, daí a associação duradoura entre Tarô, Thoth e Hermes Trismegistus.
É importante separar o que os historiadores dizem hoje sobre o tarô: sua origem é derivada da Itália do século XV como um jogo de cartas (tarocchi). Não há nenhuma evidência de que o Tarô existia no Egito antigo. A associação com o Egito é uma construção do século XVIII, alimentada pelo imaginário ocultista da época.
Mas a tradição esotérica diz que o Tarô é um livro de sabedoria antiga que sobreviveu ao Egito, e que foi preservado por sociedades secretas.
Veja que ambas as visões coexistem. Uma é factual; a outra é simbólica e ritualística. Assim como o tarô, que é simbólico.
Se você sente uma conexão com o Egito, com Thoth, com as Tábuas de Esmeralda, isso é válido no plano simbólico. A tradição esotérica do Tarô é poderosa exatamente porque carrega séculos de camadas de significado, mesmo que a origem histórica seja diferente.
O Tarô que você usa, seja ele RWS, Etteilla, Thoth ou Marselha, está impregnado dessa herança imaginária do Egito, e isso não o torna menos verdadeiro no plano da alma.
Agora, que tal fazer uma consulta?
- COURT DE GÉBELIN, Antoine. O Jogo dos Tarôs: Tomo 1, Volume 8, de O Mundo Primitivo, analisado e comparado com o mundo moderno. Clube de autores, 2024. (Sugestão de livro aqui)
- MAIA, Kathleen de Oliveira. A sacerdotisa, o mundo e a roda da fortuna: uma análise sobre mulheres e cartomancia no Rio de Janeiro (1860-1890). 2023. 147 f. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2023. (Sugestão de leitura aqui)
- LÉVI, Éliphas. Dogma e Ritual da Alta Magia. Tradução de [Rosabis Camaysar. São Paulo: Pensamento, 2017. (Sugestão de livro aqui)
- OXFORD UNIVERSITY. The Emerald Tablet of Hermes Trismegistus. Oxford: Cabinet, 2026. (Aqui)


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