Há muito tempo eu queria escrever este texto.
As ideias ficavam rondando meus pensamentos, mas sempre surgia alguma urgência maior. Depois, na hora de dormir, elas voltavam. Como se existissem coisas que só descansam quando finalmente encontram lugar no papel.
Talvez seja apropriado começar uma conversa sobre ciclos justamente assim.
Porque algumas ideias também obedecem ao seu próprio tempo.
Nos últimos anos, passei a conhecer a Roda do Ano, um calendário ritual presente em tradições de origem celta que organiza o tempo a partir das mudanças das estações e dos ciclos da natureza.
Embora tenha surgido em um contexto histórico e cultural muito diferente do Brasil, algo nessa maneira de olhar o tempo me pareceu surpreendentemente familiar.
Não porque eu tenha crescido conhecendo essas celebrações.
Mas porque cresci vivendo muitos dos ritmos que elas procuram observar.
Venho de uma região cuja vida sempre esteve profundamente ligada à terra e ao café. Ali, o calendário não era marcado apenas por datas. Era marcado pelo tempo de plantar, pelo tempo de colher, pelas chuvas, pelas secas e pelas mudanças da paisagem.
Muitas coisas simplesmente apareciam na época certa.
Limão. Mandioca. Inhame. Abóbora.
E boa parte do que circulava entre as pessoas nem passava pelo mercado.
Era comum alguém colher mais alface do que precisava e trocar com o vizinho por algumas espigas de milho, por frutas ou por outro alimento da estação. Hoje reconheço esse costume como uma forma de escambo, mas, naquela época, era apenas a maneira como a vida acontecia.
Talvez seja por isso que ainda me cause estranhamento precisar comprar algumas frutas.
Sim, continuo inconformada por ter que comprar ponkan no mercado.
Quando me aproximei da Roda do Ano, não senti que estava adotando uma tradição estrangeira. O que encontrei foi uma linguagem capaz de nomear experiências que já faziam parte da minha memória.
Percebi que o tempo nem sempre precisa ser entendido como uma linha reta.
Os ciclos da Lua retornam.
As estações retornam.
As colheitas retornam.
Até nós mesmos atravessamos fases que parecem voltar, embora nunca exatamente da mesma forma.
É justamente aí que o devir volta a aparecer.
Os ciclos não repetem o passado.
Eles nos transformam a cada retorno.
Foi por isso que essas celebrações passaram a fazer sentido para mim. Não como uma tentativa de reproduzir costumes de outra cultura, mas como um convite para observar, com mais atenção, a relação entre tempo, natureza e memória.
Ao longo dos próximos textos, quero compartilhar um pouco desse caminho.
Vamos conversar sobre os sabbats, os esbats e outras celebrações ligadas aos ciclos da natureza. Mas também vamos falar sobre as memórias que essas datas despertam em mim, sobre a vida no interior, sobre as plantas, as colheitas, as estações e as pequenas experiências que moldaram a forma como aprendi a perceber a passagem do tempo.
Porque, no fim das contas, a Roda do Ano não é, para mim, uma tentativa de ser celta.
Ela é um lembrete de que também fazemos parte da natureza.
E talvez a terra nunca tenha deixado de nos ensinar seus ciclos.
Nós é que, às vezes, deixamos de escutá-la
- COOK, Fiona. A Roda do Ano: a linguagem secreta do ritmo da natureza. Tradução de Gina Santiago. Ilustrações de Jessica Roux. São Paulo: DarkSide Books, 2025. (Sugestão de livro aqui).


Deixe um comentário