Corte a maçã e veja a estrela dentro

3–4 minutos

Quando penso no outono, o que me vem à cabeça não são apenas as folhas caindo.

É cheiro.

Canela. Maçã assando. Bolo saindo do forno com castanhas. Uma xícara quente nas mãos, um gato enrolado no colo enquanto o vento começa a esfriar do lado de fora. Alguns alimentos parecem ter nascido para determinadas estações.

A maçã é um deles.

Poucas frutas carregam tantos significados em culturas diferentes. Na tradição bíblica, ela costuma ser associada ao conhecimento, embora o texto do Gênesis nunca mencione explicitamente uma maçã. Já nas tradições celtas, ela aparece ligada à cura, à abundância e ao Outro Mundo.

Avalon, por exemplo, costuma ser traduzida como “Ilha das Maçãs”, um lugar associado ao descanso, à cura e à renovação em diversas narrativas do ciclo arturiano.

Na mitologia nórdica, a deusa Idunn guarda maçãs que preservam a juventude dos deuses.

Culturas diferentes. A mesma fruta. Existe ainda um detalhe curioso.

Se você cortar uma maçã na horizontal, verá que as sementes formam um desenho muito próximo de uma estrela de cinco pontas.

Não há nenhum mistério nisso. É apenas a forma natural como os cinco carpelos do fruto se organizam.

Mesmo assim, não deixa de impressionar que uma fruta tão carregada de simbolismo esconda uma estrela em seu interior.

Outro ingrediente inseparável dessa época do ano é a canela.

Ela não nasce em pó.

A canela é a casca interna de árvores do gênero Cinnamomum. Depois de retirada, ela seca naturalmente e se enrola formando aqueles bastões que conhecemos.

Durante séculos, foi um produto extremamente valioso nas rotas comerciais entre a Ásia e a Europa. Seu alto preço fez surgir histórias, lendas e estratégias comerciais para esconder sua verdadeira origem.

Hoje ela está ao alcance de quase todo mundo.

Continua aquecendo da mesma forma.

Juntar maçã e canela talvez seja uma das combinações mais felizes da cozinha. A acidez suave da fruta encontra o aroma quente da especiaria, criando sabores que parecem pertencer naturalmente ao inverno e ao outono.

As nozes também carregam uma longa história.

Vestígios arqueológicos mostram que diferentes espécies já faziam parte da alimentação humana muito antes do surgimento da agricultura. A nogueira-europeia (Juglans regia) recebeu dos romanos um nome que significa, literalmente, “a noz de Júpiter”, indicando o prestígio que esse alimento possuía.

Sua casca rígida protege um interior delicado.

Talvez seja por isso que tantas culturas tenham associado a noz ao conhecimento, à sabedoria e ao que permanece escondido até ser revelado.

No fim das contas, preparar um chá de maçã com canela ou assar um bolo com maçãs e nozes não precisa ser um ritual religioso.

Pode ser apenas uma forma de acompanhar a estação.

Os povos que dependiam diretamente das colheitas aprendiam a cozinhar com aquilo que a terra oferecia em cada época do ano. Nós, acostumados aos supermercados, muitas vezes esquecemos que os alimentos também possuem seus próprios ciclos.

Talvez seja por isso que determinadas receitas pareçam fazer mais sentido em certas épocas.

Quando o frio chega, o corpo pede calor. E talvez a memória peça também.

Basta cortar uma maçã e encontrar uma estrela escondida dentro dela.

Às vezes, a natureza gosta de nos lembrar que a beleza também mora nas pequenas coisas.

Nota da autora: Este texto foi escrito com uma xícara de chá de maçã com canela ao lado. Eu estava gripada, daquelas gripes que fazem qualquer bebida quente parecer remédio. Talvez por isso eu tenha tanta certeza de que algumas receitas também são formas de cuidado. E sim, este blog ainda vai falar bastante sobre comida.

  • NARVIDOTTIR, Yavanna. A Roda do Ano. Edição de Ágatha Kimura. 2. ed. 2023. (Sugestão de leitura aqui).


Descubra mais sobre Iara Lima

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *