Antes de compartilhar qualquer receita por aqui, quero contar uma coisa.
Durante muito tempo, a cozinha foi o coração da casa.
Antes da eletricidade, do gás encanado e dos fogões modernos, o fogo ocupava o centro da moradia. Era ele que aquecia, iluminava, permitia cozinhar os alimentos e reunia a família ao final do dia. Em torno dele, histórias eram contadas, conhecimentos eram transmitidos e a vida cotidiana acontecia.
Por isso, cozinhar nunca foi apenas uma necessidade.
Sempre foi uma forma de transformar.
Transformar grãos em pão. Leite em queijo. Frutas em compotas. Ervas em chás. Ingredientes simples em alimento, cuidado e memória.
Não é difícil entender por que tantas tradições associaram a cozinha ao sagrado.
Na cultura popular europeia, por exemplo, a figura da house witch, a “bruxa da casa”, não era necessariamente uma personagem fantástica. Era, muitas vezes, a mulher que conhecia os tempos do fogo, das plantas, das conservas, dos remédios caseiros e da alimentação da família. Ela dominava um conjunto de saberes transmitidos entre gerações.
Talvez seja por isso que, até hoje, em qualquer reunião, as pessoas acabem se encontrando na cozinha.
Existe alguma coisa naquele espaço que convida à conversa.
Enquanto a comida cozinha, ninguém parece ter tanta pressa.
E talvez seja justamente esse o ensinamento mais importante.
Cozinhar exige presença.
O bolo não assa antes do tempo. O pão precisa descansar. O caldo precisa reduzir lentamente. Não existe atalho para certas transformações.
A cozinha nos obriga a respeitar ritmos.
Isso me faz pensar que toda receita é também um registro de memória.
Quando alguém nos ensina um prato da família, não transmite apenas uma sequência de ingredientes. Transmite gestos, preferências, modos de fazer e pequenas histórias que dificilmente aparecem escritas.
Cada receita guarda um pouco de quem a preparou antes de nós.
Talvez por isso uma comida nunca tenha exatamente o mesmo sabor quando outra pessoa a faz.
Não é apenas a técnica que muda.
É a experiência de quem cozinha.
Gosto de pensar que existe um pequeno ritual nisso tudo. Não no sentido sobrenatural da palavra, mas como um gesto de atenção.
Lavar os ingredientes.
Acender o fogo.
Esperar o tempo certo.
Sentir o aroma que começa a preencher a casa.
São ações simples que nos fazem desacelerar e perceber de onde veio aquilo que estamos prestes a comer.
No fim das contas, cozinhar também é uma maneira de agradecer.
À terra que produziu os alimentos.
À chuva que permitiu que crescessem.
Às mãos que plantaram, colheram, transportaram e prepararam tudo até chegar à nossa mesa.
Talvez seja por isso que tantas lembranças importantes da infância tenham cheiro.
Antes mesmo de virar memória, elas passaram pela cozinha.
E isso, para mim, já é extraordinário.
Nota da autora: Este texto nasceu durante a leitura de A Casa da Bruxa Natural, de Arin Murphy-Hiscock, mas também das lembranças dos bolinhos de milho da minha mãe e do chá quente que me acompanhou enquanto um daqueles vírus insistentes resolvia fazer morada por aqui.
- MURPHY-HISCOCK, Arin. Bruxa natural: guia essencial de ervas, flores, cristais e outras magias. Tradução de Stephanie Borges. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2021. (Sugestão de livro aqui).
- MURPHY-HISCOCK, Arin. A Casa da Bruxa Natural: rituais, feitiços e receitas para criar um lar mágico. Tradução de Cláudia Mello Belhassof. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2022. (Sugestão de livro aqui).
- MURPHY-HISCOCK, Arin. O bem-estar da bruxa natural. Tradução de Claudia Mello Belhassof. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2023. (Sugestão de livro aqui).
- MURPHY-HISCOCK, Arin. O Jardim da Bruxa Natural: plantando magia, criando e cultivando seu jardim místico. Tradução de Cecília Camargo. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2025. (Sugestão de livro aqui).


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