Lembra a Ponkan que me indignou?
Toda vez que vou ao mercado e vejo uma ponkan à venda, sinto uma pequena pontada no peito. Nem é exatamente saudade.
É a estranheza de precisar comprar uma fruta que, durante a minha infância, simplesmente aparecia no quintal quando chegava a época certa.
Hoje ela vem em caixas, etiquetada, pesada na balança e passada no caixa.
Antes, bastava estender a mão. Mas isso fica para outra conversa.
Hoje quero falar sobre uma coisa que a natureza faz há milhares de anos e que nós quase deixamos de perceber: a sazonalidade.
A ponkan começa a amadurecer durante o outono e chega ao auge no inverno. Depois desaparece. Não porque alguém decidiu tirá-la das prateleiras, mas porque esse é o tempo dela.
E faz sentido.
Frutas cítricas são ricas em vitamina C e outros compostos importantes para o organismo justamente numa época em que as infecções respiratórias costumam aumentar. Durante muito tempo, antes da refrigeração e do transporte global de alimentos, era isso que as pessoas tinham disponível.
Os alimentos acompanhavam as estações. Não apenas aqui.
Na tradição britânica, por exemplo, é comum associar o Natal às laranjas. Durante o século XIX, muitas crianças recebiam uma única laranja como presente de Natal. Era um alimento precioso, difícil de conseguir e símbolo de abundância.
Durante a Segunda Guerra Mundial, quando frutas cítricas ficaram escassas, esse costume ganhou ainda mais significado. No hemisfério norte, o Natal acontece no inverno. Aqui, nossa companheira de inverno é a ponkan.
Não porque uma fruta substitua a outra, mas porque cada território oferece aquilo que consegue produzir em determinado momento do ano.
Quando observamos isso, percebemos que nossos hábitos alimentares sempre estiveram profundamente ligados aos ciclos da natureza. As raízes aparecem quando precisamos de alimentos mais energéticos.
As frutas mais leves predominam nas estações quentes. As folhas tenras acompanham o período de crescimento. A diversidade muda conforme muda o clima.
Hoje encontramos praticamente tudo o ano inteiro.
Isso é uma conquista importante da agricultura, da logística e da conservação dos alimentos. Mas também fez muita gente esquecer que cada alimento tem seu próprio tempo. Comer uma fruta na época em que ela amadurece não é apenas uma questão de tradição.
Ela costuma estar mais saborosa, mais abundante e exigir menos recursos para chegar até nós. Talvez por isso eu ainda pense tanto na ponkan.
Ela me lembra uma infância em que as estações eram percebidas não pelo calendário, mas pelo que aparecia no quintal. A chegada do frio tinha cheiro de fruta cítrica. E isso dizia muito mais sobre o inverno do que qualquer previsão do tempo.
A natureza continua seguindo seus ciclos. Talvez nós é que tenhamos parado de observá-los.
Da próxima vez que encontrar uma ponkan no mercado, tente lembrar que ela não é apenas uma fruta.
Ela também é uma estação inteira amadurecendo.
- HERE’S Why You Get an Orange in Your Christmas Stocking. EatingWell, [S. l.], 6 mar. 2026.(Aqui).
- Durbach N. One British Thing: A Bottle of Welfare Orange Juice, c. 1961–1971. Journal of British Studies. 2018;57(3):564-567. doi:10.1017/jbr.2018.84 (Sugestão de leitura aqui).
- SILVA, Aline Priscilla Gomes da et al. Índices de identidade e qualidade de tangerina ‘Ponkan’ produzida no estado da Paraíba. Agropecuária Técnica, Areia, v. 35, n. 1, p. 55-63, 2014. (Sugestão de leitura aqui).


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