Outono, assim como a primavera, é marcado por um equinócio. Trata-se de um fenômeno astronômico em que o Sol incide diretamente sobre a linha do Equador, fazendo com que os dois hemisférios da Terra recebam praticamente a mesma quantidade de luz. O resultado são dias e noites com duração muito semelhante.
É quando a natureza começa a desacelerar. As folhas caem. O ar esfria. E o próprio corpo parece perceber que chegou a hora de diminuir o ritmo.
Mabon não é apenas uma data do calendário pagão. É uma forma de observar esse momento da natureza. Para os povos celtas, representava a segunda grande colheita do ano, quando grãos, frutas e tubérculos eram armazenados para atravessar os meses mais frios.
Mabon é um sabá menor.
Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, seu simbolismo não está ligado a fazer pedidos. É um momento de agradecer. De olhar para trás e reconhecer tudo aquilo que foi cultivado e colhido ao longo do ciclo que termina.
A natureza oferece uma imagem bonita desse processo. As árvores deixam cair suas folhas para economizar energia durante o inverno. Elas não perdem algo. Elas se preparam para continuar vivendo.
Os alimentos tradicionalmente associados a Mabon são aqueles abundantes no fim do outono: maçãs, romãs, uvas, abóboras, batatas, cenouras, cebolas e os grãos, como milho, trigo, aveia e cevada. É uma época que convida a preparar pães, bolos, bebidas quentes e refeições compartilhadas.
Os celtas mantinham uma relação muito próxima com os ciclos da terra porque dependiam deles para sobreviver. Hoje, vivendo em cidades e com supermercados abastecidos durante o ano inteiro, é fácil perder essa percepção das estações. Mabon nos convida justamente a recuperá-la: desacelerar, observar e compreender que descansar também faz parte do ciclo da vida.
E no Brasil?
No Hemisfério Sul, Mabon acontece por volta de 20 ou 21 de março, quando o outono começa. As noites tornam-se gradualmente mais longas, as temperaturas começam a diminuir em muitas regiões e diversas colheitas marcam a estação, como milho, abóboras, maçãs e, no Sul, o pinhão.
Os povos indígenas brasileiros também possuem calendários próprios, organizados pelos ciclos da natureza. Cada povo observa fenômenos como a floração das árvores, o comportamento dos animais, as fases da Lua ou o regime das chuvas para orientar seus períodos de plantio, colheita e celebração. Embora essas tradições não tenham relação histórica com Mabon, compartilham uma ideia semelhante: agradecer à terra por aquilo que ela oferece.
Celebrar Mabon no Brasil pode ser, justamente, reconhecer o outono a partir da paisagem e das tradições que pertencem ao lugar onde vivemos.
Minha lembrança mais forte dessa estação sempre envolve maçãs.
Quando a temperatura começava a cair, era quase automático preparar um chá de maçã com canela. Também era a época dos bolinhos de milho verde, feitos ainda com o milho fresco. Nunca gostei de café, embora adore o cheiro dele sendo passado no coador. O chá sempre foi a minha forma de acompanhar a mudança da estação.
Talvez seja por isso que, até hoje, basta sentir esse aroma para perceber que o ano começou a desacelerar.
E lembre-se: entre os celtas, Mabon também era conhecido como Alban Elued, expressão tradicionalmente traduzida como “Luz das Águas”. O nome faz referência ao equilíbrio entre luz e escuridão que marca o equinócio de outono e permanece como uma das formas poéticas de recordar essa passagem das estações.
- COOK, Fiona. A Roda do Ano: a linguagem secreta do ritmo da natureza. Tradução de Gina Santiago. Ilustrações de Jessica Roux. São Paulo: DarkSide Books, 2025. (Sugestão de livro aqui)
- DAVIES, Alison. Ano Mágico. Tradução de Verena Cavalcanti. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2022. (Sugestão de livro aqui)
- BLAKE, Deborah. Diário Mágico: 366 dias de magia e equilíbrio. Tradução de Flávia Souto Maior. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2022. (Sugestão de livro aqui)
- EASON, Cassandra. Manual Prático da Wicca. Tradução de Verena Cavalcante. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2022. (Sugestão de livro aqui)


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