Ostara e a primavera

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Primavera, assim como o outono, é marcada por um equinócio. Trata-se de um fenômeno astronômico em que o Sol incide diretamente sobre a linha do Equador, fazendo com que os dois hemisférios da Terra recebam praticamente a mesma quantidade de luz. O resultado são dias e noites com duração muito semelhante.

Assim como Mabon marca o equinócio de outono e o momento de agradecer a colheita, Ostara celebra o equinócio de primavera. Depois do silêncio do inverno, a terra desperta. As flores brotam, os dias ficam mais longos e parece surgir uma vontade espontânea de abrir as janelas e deixar o ar entrar.

Ostara é, de certo modo, o complemento de Mabon. Enquanto o outono convida ao recolhimento e ao desapego, a primavera convida ao recomeço. É o momento de observar aquilo que permaneceu vivo durante o inverno e permitir que novos projetos, ideias e afetos encontrem espaço para crescer.

Ostara é um sabá menor, celebrado na primavera.

O nome costuma ser associado à deusa germânica Eostre (ou Ostara), mencionada pelo monge Beda no século VIII como uma divindade relacionada à primavera e ao amanhecer. Embora existam poucos registros históricos sobre seu culto, ela se tornou uma figura importante nas tradições neopagãs contemporâneas, simbolizando fertilidade, renovação e novos começos.

Diversos símbolos tradicionalmente ligados à primavera aparecem também nas celebrações da Páscoa em diferentes culturas.

O ovo representa a vida em potência, aquilo que ainda está por nascer.

O coelho, conhecido por sua alta capacidade reprodutiva, tornou-se um símbolo de fertilidade e abundância.

As flores anunciam o retorno do crescimento e da renovação da paisagem.

Em inglês, a palavra Easter guarda uma possível relação com o nome Eostre, embora essa associação ainda seja debatida entre historiadores. Independentemente de sua origem, muitas tradições de primavera acabaram dialogando e se transformando ao longo dos séculos.

Ostara nos lembra que o inverno nunca é permanente. A semente permaneceu escondida durante meses, mas continua viva. Quando encontra luz, água e tempo, rompe a terra e começa novamente.

E no Brasil?

No Hemisfério Sul, Ostara acontece por volta de 22 ou 23 de setembro, quando começa a primavera.

Mas a primavera brasileira tem personalidade própria.

É a estação dos ipês floridos, das primeiras jabuticabas, das amoras, das chuvas que devolvem o cheiro de terra molhada e do canto insistente das cigarras. Enquanto a primavera europeia celebra o degelo depois da neve, a nossa explode em cores e umidade, ocupando jardins, calçadas e até as rachaduras do asfalto.

Os ciclos naturais continuam acontecendo, apenas se expressam de outra maneira.

Também é nessa época que muitas regiões celebram Cosme e Damião, tradição que, no Brasil, ganhou características próprias ao reunir elementos africanos, católicos e populares. Para muita gente, a primavera também tem gosto de balas distribuídas às crianças.

Essa é, inclusive, minha lembrança mais forte da estação.

Lembro de acompanhar minha mãe ao mercado para comprar sacos de bala de iogurte que seriam distribuídos às crianças do bairro no dia de Cosme e Damião. Havia um quadro dos gêmeos na sala de casa, e aquele movimento de preparar os doces fazia parte da chegada da primavera tanto quanto os ipês floridos.

Confesso que minha glicose provavelmente não aprovava tanta bala. Mas, se sobrevivi, talvez nem estivesse tão alta assim.

E lembre-se: entre os celtas, o equinócio de primavera também era conhecido como Alban Eilir, expressão tradicionalmente traduzida como “Luz da Terra”. O nome celebra o retorno do crescimento da natureza após o inverno e recorda que toda primavera começa muito antes de as primeiras flores aparecerem.

  • BLAKE, Deborah. Diário Mágico: 366 dias de magia e equilíbrio. Tradução de Flávia Souto Maior. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2022. (Sugestão de livro aqui)
  • COOK, Fiona. A Roda do Ano: a linguagem secreta do ritmo da natureza. Tradução de Gina Santiago. Ilustrações de Jessica Roux. São Paulo: DarkSide Books, 2025. (Sugestão de livro aqui)
  • DAVIES, Alison. Ano Mágico. Tradução de Verena Cavalcanti. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2022. (Sugestão de livro aqui)
  • EASON, Cassandra. Manual Prático da Wicca. Tradução de Verena Cavalcante. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2022. (Sugestão de livro aqui)


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