Quando o feito à mão vira estratégia de marketing

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Às vezes, uma notícia ultrapassa o campo do consumo e nos obriga a refletir sobre memória, cultura e trabalho.

Foi isso que aconteceu quando li as reportagens sobre a coleção da Adidas produzida com artesãs de Naupan, no México. A campanha apresentava as peças como resultado da valorização de técnicas tradicionais e do trabalho manual indígena. À primeira vista, parecia uma história inspiradora.

Mas, conforme jornalistas e pesquisadores aprofundaram a investigação, surgiram questionamentos importantes.

Segundo as reportagens, artesãs da comunidade participaram da produção das peças recebendo remuneração considerada baixa diante do valor final das camisas comercializadas. Além disso, especialistas apontaram que muitos dos pontos utilizados pertenciam a técnicas contemporâneas de bordado e não correspondiam à tradição têxtil característica de Naupan, conhecida pelo trabalho em pepenado (hilo contado). O resultado foi uma coleção que evocava a identidade da comunidade sem necessariamente representar sua prática artesanal tradicional.

Esse detalhe muda completamente a discussão.

O problema não está apenas na remuneração. Está também na forma como a narrativa foi construída.

Quando uma técnica artesanal passa a ser utilizada apenas como elemento de marketing, corre-se o risco de transformar uma tradição viva em um recurso estético desvinculado de sua história, de seus significados e das pessoas que a mantêm.

A pesquisadora Tatiana Bernaldez, que há anos estuda os bordados da região, utilizou uma expressão bastante forte para refletir sobre esse processo: epistemicídio simbólico. A ideia não é que o conhecimento desapareça de um dia para o outro, mas que ele possa ser gradualmente invisibilizado quando sua origem deixa de ser reconhecida e sua complexidade é reduzida a uma narrativa comercial.

Essa reflexão ultrapassa o caso específico da Adidas.

Ela nos faz pensar sobre o valor do trabalho manual em diferentes contextos.

O bordado nunca foi apenas uma técnica.

Ele transmite conhecimentos entre gerações, preserva modos de fazer, registra identidades e mantém vivas memórias coletivas. Cada ponto carrega um tempo de aprendizagem que não pode ser medido apenas pelas horas necessárias para executar uma peça.

Quando uma comunidade borda, ela não produz somente objetos.

Ela produz continuidade. É por isso que a discussão sobre artesanato não pode ser reduzida ao preço de uma peça.

Existe uma diferença importante entre comprar um produto artesanal e consumir apenas a estética do artesanal. No primeiro caso, reconhecemos o trabalho, a autoria e a tradição de quem produz. No segundo, consumimos apenas uma aparência de autenticidade.

Como pesquisadora interessada nas relações entre bordado, memória e patrimônio, esse episódio me fez pensar sobre algo maior: de que forma protegemos os conhecimentos tradicionais quando eles passam a circular em mercados globais?

Não existe uma resposta simples.

Parcerias entre grandes empresas e comunidades artesãs podem gerar oportunidades importantes quando há diálogo, reconhecimento da autoria, remuneração justa e respeito às técnicas e aos contextos culturais envolvidos.

Mas essas relações também exigem cuidado para que a tradição não seja reduzida a um elemento decorativo de campanhas publicitárias.

Talvez essa seja a principal pergunta que essa notícia nos deixa.

Quando admiramos um trabalho feito à mão, estamos olhando apenas para o objeto ou conseguimos enxergar também a história, o conhecimento e as pessoas que tornaram aquele trabalho possível?

Porque um bordado nunca é apenas linha sobre tecido.

Ele também é memória, tempo e continuidade.

  • Denúncia original – a primeira notícia (Proceso, 17/05/2026): “Denuncian abuso laboral y atropello a la cultura indígena en colección de Adidas” — com depoimento completo de Tatiana Bernaldez (Aqui)        
  • El Mexicano (17/05/2026): “Acusan a Adidas de desvirtuar bordado indígena y pagar 36 pesos por hora” — inclui declaração da subsecretária de Cultura (Aqui)      
  • El Universal Puebla (16/05/2026): “Denuncian presunto engaño de Adidas a artesanas de Puebla” — resumo da polêmica (Aqui)            
  • Eje Central (20/05/2026): “Acusan a Adidas de cometer abuso laboral contra artesanas” — detalha jornadas de 8 horas (Aqui)   
  • Segunda reportagem de Proceso (19/05/2026): “Tras polémica con Adidas, Secretaría de Cultura llama a artesanos a buscar capacitación” — a fala do governo (Aqui)
  • Notícia de dez/2025 (contexto histórico): “La playera del Tri 2026: nostalgia, símbolos prehispánicos y un permiso del INAH” — mostra que a Adidas sabia como fazer licenciamento correto quando quis (pagou 41 mil pesos ao INAH pela reprodução da Pedra do Sol) (Aqui)             
  • Republicação da notícia pelo Metrópoles (04/06/2026 – hoje em tempo real): Adidas é acusada de exploração indígena em uniforme do México (Aqui)              


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