Outro dia fui aprovar os comentários do blog. No meio das mensagens, apareceram dois comentários curiosos:
knwqmtkwzhyeesvrwvgfueqojtpruv
mjhxlkketykipjjuhllffxvxvrivqdo
Não era português. Não era inglês. Também não era sindarin.
Por alguns segundos, pensei que algum elfo tivesse tentado entrar em contato. Depois imaginei que um orc tivesse tropeçado no teclado. A hipótese mais divertida durou pouco. Eram apenas bots.
Programas automáticos que percorrem a internet tentando publicar spam em formulários desprotegidos. Confesso que fiquei um pouco decepcionada.
Mas foi justamente essa pequena invasão digital que me levou a pensar numa palavra curiosa: token.
Para proteger o blog, precisei configurar o Cloudflare, um sistema que identifica visitantes legítimos e bloqueia acessos automáticos. Entre outras tecnologias, ele utiliza tokens, pequenos códigos temporários que funcionam como uma prova de identidade.
Em computação, um token é exatamente isso: um sinal de que você é quem diz ser. Achei curioso porque a palavra é muito mais antiga do que a internet.
Ela vem do inglês antigo tācen, que significa “sinal”, “marca”, “evidência”. Um objeto, um gesto ou uma palavra capaz de confirmar alguma coisa.
E foi impossível não lembrar de Tolkien.
John Ronald Reuel Tolkien não foi apenas o autor de O Senhor dos Anéis. Era professor de filologia em Oxford, estudioso da história das palavras e apaixonado pelas línguas. Antes mesmo de criar a Terra-média, ele criava idiomas.
Foi aí que o mundo técnico e o mundo mágico colidiram no meu blog. Afinal este ano estamos celebrando 25 anos de Senhor dos anéis.
O Papa citou Tolkien na encíclica.
Rosa de Saron lançou álbum novo onde o título de uma música é Mordor!
A casa da moeda britânica cunhou uma moeda em homenagem a franquia!
Você achando que eu não ia usar um Token pra falar de Tolkien?
Lógico que vou no tropeço linguístico.
Token, na computação, é um código temporário que comprova sua identidade. Um sinal. Uma permissão. (É complexo de explicar, deixo para os desenvolvedores a missão, mas vou indexar fontes de pesquisa interessantes que me ajudaram a chegar até aqui, lá no final do texto, pós música – óbvio!).
Inclusive o trabalho de Gazola (2024) mostra isso na prática: ele criou uma aplicação que permite que usuários do GitHub “doem” seu limite de requisições, transformando um token de acesso em um ato de colaboração, provando a complexidade do termo.
O quenya e o sindarin não foram inventados apenas para parecer bonitos. Possuem gramática, fonética, evolução histórica e famílias linguísticas próprias. Tolkien acreditava que uma língua precisava carregar a memória de um povo.
Talvez por isso a palavra token apareça tantas vezes em sua obra.
Quando Faramir diz:
“But I will give you a token that what I say is true.”
(Mas eu lhe darei um sinal de que o que digo é verdade.)
ele não está falando de informática. Está falando de um sinal. Uma prova.
Um objeto que confirma uma verdade. Na Terra-média, quase tudo funciona assim. O Anel é um token de poder. A estrela de Eärendil é um token de esperança. A folha de Lórien é um token de amizade. A espada Narsil é um token de linhagem e memória.
São objetos que dizem muito mais do que aparentam.
Achei bonito perceber que a computação herdou exatamente essa ideia.
Um token digital também não tem valor por si só. Ele vale porque representa alguma coisa. Representa confiança. Representa autorização. Representa identidade. No fim das contas, aqueles comentários incompreensíveis me ensinaram uma pequena lição.
Os bots também produzem sequências de letras. Tolkien também produziu sequências de letras.
A diferença é que umas carregam significado, memória e intenção. As outras apenas tentam atravessar um formulário.
Depois de instalar a proteção, os comentários estranhos passaram a ir direto para a pasta de spam.
E o blog voltou a ser um lugar onde as palavras podem fazer aquilo que nasceram para fazer: criar sentido.
Talvez seja isso que mais me fascina na linguagem.
As letras são praticamente as mesmas para todo mundo.
O que muda é aquilo que conseguimos bordar com elas.
Nota da autora: Enquanto escrevia este texto, ouvi repetidas vezes a música Mordor, da banda Rosa de Saron. Segundo Bruno Faglioni, a canção usa a jornada de Frodo até a Montanha da Perdição como metáfora para o peso que cada pessoa carrega ao enfrentar as próprias sombras. Achei uma bela companhia para esta reflexão sobre linguagem, símbolos e humanidade.
- AUTENTICAÇÃO DE USUÁRIOS VIA TOKEN. ANAIS DO EGRAD, [S. l.], v. 3, n. 6, 2016 (Sugestão de leitura aqui)
- ARANTES, Luciana; SOPENA, Julien. Garantindo a Circulação e Unicidade do Token em Algoritmos com Nós Organizados em Anel Sujeitos a Falhas. In: WORKSHOP DE TESTES E TOLERÂNCIA A FALHAS (WTF), 11. , 2010, Gramado/RS. Anais […]. Porto Alegre: Sociedade Brasileira de Computação, 2010 (Sugestão de leitura aqui)
- GAZOLA, João Vitor. Ferramenta de coleta de dados GitHub Token Donation. 2024. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Ciência da Computação) – Fundação Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Campo Grande, 2024. (Sugestão de leitura aqui)
- FRUGERI, Nelson. Entenda de uma vez por todas o que são tokens em GenAI. Medium, 25 set. 2024 (Aqui)


Deixe um comentário