Tenho escrito bastante sobre os celtas neste blog. Mas percebi que nunca expliquei quem foram esses povos e por que eles aparecem tantas vezes por aqui.
A cultura egípcia está em toda parte. Cinema, literatura, documentários, jogos, romances… Quase todo mundo já ouviu falar das pirâmides, de Ísis, de Osíris ou de Anúbis. Os celtas, por outro lado, permanecem muito menos conhecidos, apesar da enorme influência que exerceram sobre a história e o imaginário europeu.
Talvez seja justamente por isso que senti vontade de escrever este texto.
Guardadas as diferenças históricas entre esses contextos, existe um paralelo que sempre me chama atenção. Assim como muitos povos indígenas das Américas, diversos povos celtas também sofreram processos de conquista, assimilação cultural e apagamento de suas tradições. Em ambos os casos, a oralidade ocupava um lugar central na transmissão do conhecimento.
Isso nunca foi um sinal de atraso. Muito pelo contrário. Era uma forma de preservar o conhecimento na memória das pessoas, e não apenas nos objetos. Para quem tenta reconstruir essa história séculos depois, porém, isso representa um desafio: quando poucas vozes sobrevivem ao tempo, o esquecimento acontece com mais facilidade.
O poeta e ensaísta britânico Robert Graves, conhecido por suas interpretações da mitologia celta em A Deusa Branca, comenta que a tradição atribuída aos druidas valorizava profundamente a transmissão oral do conhecimento. Segundo essa perspectiva, registrar por escrito os ensinamentos mais importantes poderia enfraquecer ou distorcer seu significado. (A gente conhece bem esse problema: chama-se interpretação de texto!)
A principal referência utilizada para o desenvolvimento desta conversa é o livro de Claudio Blanc, indicado nas fontes ao final da página. Algumas informações também são complementadas por outras obras e pesquisas, justamente porque, durante muitos séculos, quase tudo o que se sabia sobre os povos celtas havia sido registrado por seus próprios conquistadores.
Foi apenas a partir do século XIX, com o avanço da arqueologia, que uma nova luz começou a ser lançada sobre essa cultura. Somadas às tradições orais preservadas principalmente na Irlanda, mas também na Escócia, no País de Gales, na Inglaterra, na França, em Portugal e na Galícia, essas descobertas permitiram compreender um pouco melhor quem foram esses povos.
A cultura celta desenvolveu-se durante a Idade do Ferro, sendo tradicionalmente associada a dois grandes momentos arqueológicos: Hallstatt, localizada na atual Áustria, e La Tène, na atual Suíça. Este último sítio arqueológico, inclusive, tornou-se a principal referência material para o estudo da civilização celta.
A sociedade celta era formada por diferentes tribos que compartilhavam uma matriz cultural comum e uma forte tradição guerreira. No entanto, diferentemente do que muitas vezes se imagina, a conquista territorial nem sempre era o principal objetivo dos conflitos. Claudio Blanc faz um paralelo interessante ao observar que, em muitos aspectos, as guerras celtas lembravam aquelas praticadas por diversos povos indígenas no Brasil, frequentemente motivadas por disputas locais, vinganças ou saques, e não pela expansão permanente do território.
Dentro dessa sociedade, os druidas constituíam uma classe social distinta. Eram conselheiros, juízes, sacerdotes e guardiões do conhecimento. Havia diferentes funções dentro da tradição druídica, mas quero destacar principalmente seu aspecto espiritual, pois é ele que mais dialoga com muitos dos textos publicados neste blog.
Curiosamente, um dos homens que mais contribuiu para preservar informações sobre os celtas foi justamente um de seus maiores adversários: Júlio César.
Isso cria uma situação curiosa para os historiadores: uma parte importante do que sabemos sobre os celtas foi registrada justamente por alguém que estava em guerra contra eles.
Em A Guerra das Gálias, César descreve aspectos da organização social celta e do papel desempenhado pelos druidas. Segundo seus relatos, eles não eram apenas sacerdotes, mas também filósofos, estudiosos da natureza, conselheiros, juízes e responsáveis pela condução dos rituais religiosos.
Embora conheçamos apenas parte das antigas divindades celtas, e embora muitos dos nomes atualmente utilizados para os sabás tenham sido adotados apenas na modernidade, é possível perceber que grande parte desse imaginário permaneceu viva, sobretudo por meio da literatura medieval irlandesa.
O próprio Júlio César menciona a existência de uma importante divindade celta que ele identificou com Mercúrio, seguindo o costume romano de associar deuses estrangeiros aos deuses de seu próprio panteão. Mercúrio corresponde ao Hermes grego e, séculos mais tarde, Hermes seria aproximado do deus egípcio Thoth, dando origem à figura de Hermes Trismegisto.
Só essa sequência de encontros entre diferentes culturas já renderia um texto inteiro.
A vida celta era profundamente integrada à natureza. Florestas, rios, montanhas, fontes e lagos não eram apenas elementos da paisagem, mas espaços considerados sagrados. Algumas árvores, como o carvalho, recebiam especial veneração. Acreditava-se, por exemplo, que o visco que crescia sobre seus galhos representava uma manifestação da própria alma da árvore.
A relação entre os celtas e o céu também era muito forte. Diversos monumentos megalíticos, como os henges, eram utilizados para observações astronômicas e marcações dos ciclos solares. Embora Stonehenge tenha sido construído muitos séculos antes do surgimento da cultura celta, acabou incorporado ao imaginário moderno como um dos grandes símbolos dessa tradição.
Há ainda um aspecto bastante curioso. Para muitos povos celtas, a cabeça humana era considerada o centro da alma e do poder espiritual. Ela representava a identidade, a consciência e a força sobrenatural do indivíduo.
Se você é umbandista, talvez perceba aqui um padrão interessante. Na Umbanda, cuida-se muito do Ori, entendido como a dimensão mais profunda da individualidade e da consciência, o ponto de conexão entre a pessoa e o divino.
Em outro momento escrevo com mais calma sobre esse conceito, mas gosto de perceber como diferentes culturas, separadas por oceanos e por séculos de história, às vezes chegam a perguntas muito parecidas sobre quem somos e qual é o nosso lugar no mundo.
Estudar os celtas não é apenas olhar para um povo que viveu há mais de dois mil anos. É perceber como certas perguntas continuam atravessando a humanidade: de onde viemos? Como nos relacionamos com a natureza? O que permanece depois que uma cultura é conquistada?
Apesar da colonização, das transformações e dos silêncios impostos ao longo dos séculos, muitos desses saberes continuam vivos. Às vezes preservados em manuscritos medievais. Às vezes em tradições populares. Às vezes apenas como um sussurro.
Mas ainda vivos.
Talvez seja justamente por isso que continuo escrevendo sobre eles.


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