Boas lonjuras

3–4 minutos

“Boas lonjuras”.

Algumas palavras parecem nascer já carregando saudade.

A expressão ficou conhecida no filme Alice no País das Maravilhas (2010), dirigido por Tim Burton. Não aparece nos livros originais de Lewis Carroll, mas bastaram duas palavras para sintetizar algo que, curiosamente, existe em muitas histórias que é o desejo de que alguém atravesse uma longa jornada e encontre um bom caminho.

Sempre gostei do universo de Alice.

Enquanto muitas crianças escolhiam uma princesa favorita, eu escolhia justamente a menina que caiu numa toca de coelho para descobrir um mundo onde quase nada obedecia à lógica comum.

Talvez porque Alice nunca tenha buscado um reino. Ela buscava compreender um mundo que mudava o tempo inteiro.

Este texto, como você já percebeu, é Meraki.

Porque quero amarrar alguns fios que, durante muito tempo, caminharam separados dentro de mim.

Na literatura, na mitologia e na psicologia existe uma figura conhecida como psicopompo que desempenha o papel de ser aquele que conduz alguém durante uma travessia.

Nem sempre ele leva os mortos, muitas vezes conduz os vivos quando deixam para trás uma forma antiga de existir e ainda não sabem como habitar a nova.

Em Alice no País das Maravilhas, o Coelho Branco cumpre exatamente esse papel. Ele não explica nada, apenas passa correndo e Alice escolhe segui-lo.

É curioso perceber como muitos guias aparecem assim na vida, e não empurram ninguém. Apenas passam diante de nós, despertam uma pergunta e seguem seu caminho. Na história de Carroll surge outro guia, o Gato de Cheshire.

Enquanto o Coelho conduz Alice até a porta, o Gato a ensina como caminhar depois que ela já entrou. É ele quem diz que todos ali são loucos e que, naquele lugar, procurar absoluta normalidade talvez seja perder justamente aquilo que torna a viagem possível.

Essa imagem dos animais como guias não pertence apenas à literatura inglesa.

Em diferentes tradições, animais aparecem como mediadores entre o mundo humano e outras dimensões da existência. Entre muitos povos originários brasileiros, os pajés estabelecem um diálogo profundo com a natureza, compreendendo plantas, rios e animais como participantes de uma mesma rede de relações.

Também nas tradições celtas encontramos narrativas em que cervos, corvos, salmões e outros animais atravessam o limite entre o mundo cotidiano e o mundo do sagrado. Não porque essas cosmologias tenham uma origem comum.

Mas porque diferentes povos desenvolveram formas semelhantes de compreender uma natureza viva, habitada por presenças, ciclos e ensinamentos.

Quanto mais estudo essas tradições, mais percebo que todas parecem fazer a mesma pergunta: Quem nos acompanha quando atravessamos uma mudança?

Alice, no fundo, não é sobre contar a história de uma menina, mas de qualquer pessoa que, um dia, precisou abandonar o mundo que conhecia para descobrir outro completamente diferente.

Há alguns anos, um amigo muito querido escolheu fazer exatamente esse movimento. Mudou-se para a Irlanda. Desde então, nossas conversas passaram a atravessar um oceano.

Agora ele parte novamente. Desta vez, porém, leva consigo também um bordado feito por mim.

Gosto de pensar que um pedaço do meu trabalho seguirá fazendo companhia àquela travessia. Talvez seja isso que o bordado também faça, nem sempre impede a distância, mas encontra um jeito silencioso de permanecer presente nela.

E é por isso que gosto tanto da expressão criada por Tim Burton. Ela não deseja apenas uma boa viagem. Deseja que a travessia seja fértil. Que os caminhos sejam gentis. Que existam bons encontros pelo percurso. Que sempre apareça um Coelho Branco quando chegar a hora de partir.

E um Gato de Cheshire quando já não soubermos mais para onde seguir.

Tal qual eu comecei esse texto, te desejo: Boas lonjuras!


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