Às vezes, um texto nasce de um erro.
Já faz um bom tempo, estava eu fuçando pelo Spotify e encontrei uma música chamada Embryodead. Mas meus olhos leram outra coisa e por alguns segundos, li Embroidery.
Sorri quando percebi o engano, só que a palavra não saiu mais da minha cabeça.
Tenho reparado que isso acontece comigo com certa frequência. Foi assim com Token e Tolkien; agora aconteceu de novo, mas há outras ocorrências de tropeços linguísticos que se tornarão textos aqui, futuramente.
Talvez meu cérebro goste desses pequenos tropeços porque eles obrigam duas ideias completamente distintas a se encontrarem. Enfim, foi exatamente o que aconteceu aqui.
Embryo vem do grego émbruon e significa “aquilo que cresce dentro”. Embroidery vem do francês antigo embrouder e tem o significado de “ornamentar um tecido com agulha e linha”.
As palavras não possuem a mesma origem, mas acabaram se aproximando dentro da minha cabeça por outro motivo; ambas falam, cada uma à sua maneira, sobre algo que ainda está em formação.
A música que provocou esse pensamento pertence ao projeto alemão :Wumpscut:. Ela trata da interrupção de uma gestação; é uma obra pesada, que fala de uma sensação de que o mundo não é um local seguro. Já o bordado parece caminhar na direção oposta.
Independentemente do significado central de cada coisa, ambos falam de algo que começa invisível, mas, ponto após ponto, ou semana após semana, transforma essa possibilidade em presença. No caso do bordado, antes do primeiro ponto existe apenas o tecido; depois de algumas horas de trabalho, aquilo que era apenas uma ideia começa lentamente a ocupar espaço.
Talvez seja por isso que tantas pessoas descrevam o processo criativo como uma forma de gestação já que antes de existir publicamente, permanece crescendo em silêncio.
Há outro detalhe curioso.
Durante uma live no Instagram do Clube do Bordado, no Festival do Bordado em 2024, a psicóloga Sofia Duarte comentou que o bordado é um gesto visceral, e mesmo quando desfazemos os pontos, os pequenos furos da agulha continuam marcando as vísceras do tecido.
Criar também deixa marcas, e nem toda marca é destruição. Algumas são exatamente aquilo que torna possível o aparecimento de uma nova forma.
Em alguns casos, artistas utilizam o bordado para falar de nascimento. Lembro, por exemplo, do trabalho de Veselka Bulkan, que bordou a imagem do ultrassom de quando estava a gestar. Ali, o bordado não registrava apenas uma gravidez, mas passou a participar dela.
Nem toda gestação acontece dentro de um corpo. Algumas acontecem entre uma ideia e um caderno, ou entre uma pergunta e uma pesquisa, ou, no caso, entre uma agulha e um tecido. E é nesse lugar que reconheço meu próprio trabalho, porque essa é a gestação que eu escolhi para mim nesta vida.
Já nem acredito que fiz um erro de leitura, porque meu olhar encontrou Embroidery escondido dentro de Embryodead justamente pelo fato de ambas as palavras, de maneiras completamente opostas, falarem sobre aquilo que ainda está por nascer.
Uma fala da interrupção. A outra, da construção.
Mas ambas nos lembram que criar sempre envolve atravessar um processo.
E talvez bordar seja exatamente isso, uma forma silenciosa de gestar permanências.

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