Durante a graduação, uma professora costumava começar algumas aulas de um jeito que, na época, eu não compreendia completamente.
Ela colocava uma música.
Não era para analisar a melodia nem descobrir quem era o artista. Era para prestar atenção na letra. Depois, conversávamos sobre o que aquele texto despertava em cada um de nós.
Naquele momento eu não sabia, mas estava aprendendo uma forma diferente de leitura.
Desde então, algumas músicas passaram a fazer companhia aos meus pensamentos. Não porque tragam respostas, mas porque às vezes conseguem organizar perguntas que ainda não encontrei coragem para escrever.
Foi exatamente isso que aconteceu quando ouvi Céu da Boca, de Jenni Mosello.
A música começa dizendo:
“Desde pequena achei que pra poder falar tem que pedir licença.”
E eu fiquei pensando em quantas vezes fazemos exatamente isso.
Não apenas na infância. Também na vida adulta.
A gente aprende que existem lugares apropriados para cada parte de nós.
No trabalho, espera-se uma postura. Na universidade, outra. Na internet, mais uma.
Pouco a pouco vamos dividindo nossa identidade em compartimentos, como se cada ambiente autorizasse apenas uma versão específica daquilo que somos.
Talvez por isso eu tenha demorado tanto para entender qual era, afinal, o lugar deste blog. Durante muito tempo achei que precisava decidir. Ou escrevia como pesquisadora. Ou escrevia como pessoa. Como se essas duas existências não ocupassem exatamente o mesmo corpo.
Tenho formação em Biblioteconomia e Ciência da Informação. Escrevo artigos científicos. Faço pesquisa. Gosto de referências, de notas de rodapé, de metodologias e de argumentos bem construídos.
Mas também gosto de preparar chá quando faz frio. De observar as estações.
De bordar. De cozinhar. De escrever sobre memórias. De encontrar símbolos em coisas aparentemente comuns. Nenhuma dessas experiências anula a outra.
Ao contrário. É justamente porque vivi todas elas que consigo pesquisar aquilo que pesquiso.
A ciência costuma aparecer como produto final. Mas antes dela existe uma pessoa.
Existe alguém que observa, sente curiosidade, faz perguntas, erra, muda de ideia, recomeça.
A pesquisa não nasce num laboratório. Ela nasce numa experiência humana.
Por isso comecei a pensar que talvez este blog nunca tenha sido um espaço para publicar resultados.
Talvez ele seja o lugar onde ficam registradas as perguntas.
Os livros mostram aquilo que conseguimos organizar. Os artigos mostram aquilo que conseguimos demonstrar.
Mas existe um território enorme entre viver uma experiência e transformá-la em conhecimento. É nesse intervalo que este blog existe.
Não escrevo aqui para convencer ninguém. Também não escrevo porque acredito que minhas experiências sejam extraordinárias.
Escrevo porque registrar o caminho também faz parte do processo de conhecer.
A própria palavra blog nasceu dessa ideia. Vem de weblog: um registro na internet. Um diário aberto.
E talvez seja exatamente isso que eu esteja construindo aqui.
Não um currículo. Não uma vitrine. Muito menos uma tentativa de parecer especialista em tudo. Apenas um registro honesto das coisas que atravessam minha vida enquanto aprendo.
Foi então que voltei à música. Mais adiante, Jenni Mosello canta:
“Tudo que você quiser tá na ponta da língua. É só abrir a boca.”
Não interpreto esse verso como um convite para falar sem pensar. Muito menos para opinar sobre tudo. Escuto nele outra coisa.
A lembrança de que existe um momento em que deixar de falar também passa a ter um custo. Nem toda reflexão precisa virar artigo científico.
Nem toda experiência precisa ser validada por uma banca. Nem toda pergunta precisa chegar ao mundo já respondida. Algumas existem apenas para abrir conversa.
Talvez seja isso que eu esteja tentando fazer por aqui. Continuar pesquisando. Continuar escrevendo. Mas sem esconder a pessoa que existe antes da pesquisadora.
Porque conhecimento também nasce da experiência.
E, às vezes, um diário aberto pode dizer tanto sobre uma pesquisa quanto a própria pesquisa consegue dizer sobre quem a escreveu.
Nota da autora: Porque do tucano? É porque ele possui como principal simbolismo a comunicação clara. Também representa autenticidade por causa de suas cores. Cá estou.
- GONÇALVES, Fabrício Guimarães. Blog – o que é? Como funciona? E por que “blogar”? What is blog? How to do it? And Why?. Radiologia Brasileira, São Paulo, v. 44, n. 3, p. vii-viii, maio/jun. 2011. (Sugestão de leitura aqui)


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