Lammas: a colheita que alimenta a alma

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No Hemisfério Sul, o início de fevereiro marca a celebração de Lammas, também conhecido pelo nome celta Lughnasadh (pronuncia-se lu-na-sá). É o festival da primeira colheita, um dos grandes sabás da tradição celta.

O nome Lammas deriva do inglês antigo loaf mass, “missa do pão”, em referência ao costume medieval de preparar pães com a primeira farinha da colheita e levá-los para serem abençoados.

Lughnasadh homenageia o deus Lugh e sua mãe adotiva, Tailtiu, que, segundo a tradição irlandesa, morreu após preparar a terra para o cultivo. Desde então, a primeira colheita tornou-se também um momento de gratidão pelo trabalho humano e pela generosidade da natureza.

Mais do que celebrar a fartura, Lammas lembra que nenhuma colheita acontece por acaso.

Antes do pão, houve a semente e antes da abundância, houve espera; mas antes da mesa, houve trabalho. Essa percepção dos ciclos da terra não pertence apenas à tradição celta.

Diversos povos indígenas brasileiros também organizam sua vida a partir dos ritmos da natureza. Entre os Krahô, por exemplo, a celebração do milho fortalece a diversidade agrícola e reafirma a importância da produção coletiva. No Alto Rio Negro, diferentes povos observam constelações para orientar o momento adequado do plantio e da colheita.

São tradições distintas, mas todas reconhecem que cultivar alimento também significa cultivar comunidade.

E Lammas desperta em mim uma lembrança viva da infância, em que todos os anos, parte da família se reunia na casa da minha tia para preparar o milho. E era um verdadeiro mutirão.

Os homens descarregavam os sacos de milho, abriam as espigas e separavam as palhas. As mulheres ralavam, cortavam e cozinhavam.

Nós, crianças, transformávamos as palhas em bonecas enquanto inventávamos brincadeiras pelo quintal, porque eu nasci numa era analógica. No fim do dia, a cozinha parecia uma pequena festa, tinha pamonha, milho cozido, curau, bolo de milho, bolinhos fritos. Nada da colheita era desperdiçado, a sobra das palhas eram guardadas para secar e usar no fogão à lenha, milhos que sobravam tornava alimentação para as galinhas e alguns sabucos eram guardados. Na época eu não sabia, para mim era só rotina ou a vida acontecendo, só que hoje percebo que aquilo também era uma celebração da colheita.

Nunca aprendi a receita da pamonha e ás vezes me pergunto se alguém da família ainda a guarda escrita em algum caderno antigo. Só que o mais importante não creio que seja a receita, mas o modo como ela era feita; em conjunto.

Cada pessoa realizando uma parte do trabalho para que, no final, todos compartilhassem o mesmo alimento.

É curioso perceber como diferentes culturas, mesmo sem qualquer contato entre si, chegaram a gestos tão parecidos. Penso que a justificativa seja porque essas experiências são profundamente humanas.

Conhecer povos originários, estudar os celtas ou aprender sobre outras tradições ancestrais não significa procurar uma origem comum para tudo.

Significa reconhecer que diferentes sociedades encontraram maneiras próprias de responder às mesmas perguntas fundamentais que gira em torno do saber como cuidar da terra, como alimentar uma comunidade e como agradecer a vida que retorna a cada estação.

  • COOK, Fiona. A Roda do Ano: a linguagem secreta do ritmo da natureza. Tradução de Gina Santiago. Ilustrações de Jessica Roux. São Paulo: DarkSide Books, 2025. (Sugestão de livro aqui)
  • DAVIES, Alison. Ano Mágico. Tradução de Verena Cavalcanti. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2022. (Sugestão de livro aqui)   
  • BLAKE, Deborah. Diário Mágico: 366 dias de magia e equilíbrio. Tradução de Flávia Souto Maior. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2022. (Sugestão de livro aqui)
  • EASON, Cassandra. Manual Prático da Wicca. Tradução de Verena Cavalcante. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2022. (Sugestão de livro aqui)

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