No Hemisfério Sul, o dia 1º de agosto marca a celebração de Imbolc, um dos sabás menores da tradição celta. Localizado entre o inverno e a primavera, esse festival anuncia que a terra, ainda silenciosa, começa lentamente a despertar.
Seu nome deriva do gaélico i mbolg, “no ventre”, uma referência à vida que se forma antes mesmo de aparecer na superfície. Outra denominação tradicional, Oimelc, relaciona-se ao primeiro leite das ovelhas após o inverno, sinal de que um novo ciclo se aproxima.
Imbolc é dedicado a Brigid, deusa celta associada ao fogo, à poesia, à cura, à ferraria e à fertilidade. Por isso, a celebração costuma ser marcada pela presença das velas acesas, pela limpeza da casa e pela confecção das tradicionais Cruzes de Brigid, feitas com palha ou juncos e colocadas sobre portas e janelas como símbolo de proteção.
Mais do que anunciar a chegada da primavera, Imbolc celebra uma transformação quase invisível.
Nada floresceu ainda. Mas a vida já começou.
Essa forma de perceber o tempo sempre me chamou atenção.
Embora a tradição celta pertença à Europa, muitos povos indígenas brasileiros também compreendem a natureza por meio de seus ciclos. Entre os Guarani Mbya, por exemplo, existe o Ara Pyau, o “Tempo Novo”, período marcado por renovação espiritual, fortalecimento da comunidade e reorganização da vida coletiva.
Não se trata da mesma celebração.
Cada povo possui sua própria cosmologia, seus próprios ritos e sua própria maneira de compreender o sagrado.
O que me encanta é perceber que culturas tão distantes chegaram a uma mesma intuição: a natureza nunca está parada. Mesmo quando tudo parece imóvel, algo continua acontecendo sob a superfície.
Talvez seja justamente por isso que Imbolc desperte em mim uma lembrança da infância.
Até aproximadamente os sete anos de idade, minha saúde era bastante frágil. Passei por diversas internações, muitas delas justamente nesse período entre o fim do inverno e o início da primavera.
Lembro da minha mãe fazendo Cruzes de Brigid para mim.
Na entrada da Santa Casa da cidade onde nasci havia uma palmeira-leque (Licuala grandis). Como ainda não existiam celulares para distrair uma criança durante as longas esperas, eu brincava com as folhas da árvore. Separávamos as fibras mais finas e, com elas, tecíamos pequenas Cruzes de Brigid.
Tradicionalmente, elas são confeccionadas com juncos ou palha recém-colhida. Naquele hospital, eram feitas com folhas de palmeira.
O material mudou. O gesto permaneceu.
Com a cristianização das tradições celtas, Brigid passou a ser associada a Santa Brígida, preservando parte de seu simbolismo de proteção e cura dentro do imaginário cristão.
Não posso dizer se foi Santa Brígida quem me curou. Também não posso afirmar que aquelas pequenas cruzes tiveram algum poder sobrenatural. O que sei é que a memória daquele cuidado permaneceu viva. E talvez seja justamente isso que os símbolos façam.
Eles não mudam apenas aquilo que acontece ao nosso redor. Também transformam a maneira como lembramos daquilo que vivemos.
Hoje percebo que ancestralidade não é apenas herdar tradições antigas.
Ela também está nas pequenas práticas transmitidas dentro de casa, nas histórias contadas pelos nossos pais, nos gestos repetidos quase sem perceber e nos afetos que atravessam gerações.
- COOK, Fiona. A Roda do Ano: a linguagem secreta do ritmo da natureza. Tradução de Gina Santiago. Ilustrações de Jessica Roux. São Paulo: DarkSide Books, 2025. (Sugestão de livro aqui)
- DAVIES, Alison. Ano Mágico. Tradução de Verena Cavalcanti. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2022. (Sugestão de livro aqui)
- BLAKE, Deborah. Diário Mágico: 366 dias de magia e equilíbrio. Tradução de Flávia Souto Maior. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2022. (Sugestão de livro aqui)
- EASON, Cassandra. Manual Prático da Wicca. Tradução de Verena Cavalcante. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2022. (Sugestão de livro aqui)


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