Estamos em 2026, mais um ano eleitoral no Brasil. E, como acontece a cada pleito, já começamos a ver circular nas redes e nos grupos de família aquelas mensagens que misturam verdade, meia-verdade e invenção. Vídeos editados, áudios cortados, contextos suprimidos. Nada disso é novidade. A novidade, talvez, seja a velocidade com que tudo isso chega até nós.
Mas há uma história que vale a pena relembrar neste momento. Não para reviver fantasmas, mas para entender como a manipulação da informação não nasceu agora, ela tem raízes profundas na nossa democracia.
Em 1989, o Brasil vivia a primeira eleição direta para presidente desde 1960. Depois de mais de duas décadas de ditadura militar, o país finalmente voltava às urnas para escolher seu presidente. Vinte e dois candidatos se apresentaram. Os dois que foram para o segundo turno eram Fernando Collor de Mello, um jovem governador de Alagoas que se apresentava como “caçador de marajás”, e Luiz Inácio Lula da Silva, líder sindical e fundador do Partido dos Trabalhadores.
A campanha foi marcada por uma novidade: a televisão. Collor percebeu antes dos outros o poder da imagem. Recusou-se a participar dos debates do primeiro turno, preferindo controlar sua própria narrativa na propaganda eleitoral gratuita. Enquanto isso, Lula enfrentava uma cobertura midiática majoritariamente desfavorável, sendo sistematicamente associado ao comunismo especialmente depois da queda do Muro de Berlim, em novembro daquele ano.
No dia 14 de dezembro de 1989, Collor e Lula se enfrentaram no último debate do segundo turno, transmitido ao vivo pela Rede Globo. Dois dias antes da eleição.
No dia seguinte, o Jornal Nacional exibiu uma versão editada do debate. E aqui está o ponto central: a edição não foi neutra. Collor apareceu atacando, Lula apareceu se defendendo. O tempo de fala concedido a Collor foi de 3 minutos e 34 segundos. O de Lula, 2 minutos e 22 segundos. O direito de resposta de Lula, garantido no debate ao vivo, simplesmente desapareceu na edição.
O resultado todos conhecemos: Collor venceu por 53% a 47%. A edição do Jornal Nacional é amplamente citada como um dos fatores que influenciaram o eleitorado naqueles dois dias que antecederam a votação.
Em 2015, durante as comemorações dos 50 anos da emissora, a Globo revisitou o episódio. No site Memória Globo, o link que dá acesso ao caso é nomeado “Erro”. Mas, no texto que o acompanha, a palavra “erro” não aparece nenhuma vez.
Em vez disso, a emissora prefere termos como “polêmica” e “questionamento”. A âncora William Bonner, ao apresentar o caso, afirmou que a edição “acabou no fim também ficando eclipsada por uma polêmica que surgiu”, uma formulação que trata o episódio como um fenômeno espontâneo, e não como o resultado de uma escolha editorial.
A Globo reconhece o episódio, mas o faz de forma a minimizar sua responsabilidade. A memória do que aconteceu é, ela mesma, objeto de disputa.
Talvez você esteja pensando: “mas isso foi há quase quarenta anos”. E é verdade. Mas a estrutura que permitiu aquela manipulação continua presente.
Hoje, a manipulação não vem apenas de uma emissora de TV. Vem de grupos em redes sociais, a exemplo o WhatsApp, canais no YouTube, de perfis falsos em redes sociais. Mas a lógica é a mesma: selecionar, editar, enquadrar, repetir. Criar uma versão da realidade que se apresente como a única possível.
A diferença é que, em 1989, era mais fácil identificar a fonte da manipulação. Hoje, a fonte se multiplicou, se fragmentou, se disfarçou. E isso torna o trabalho de discernir entre o fato e a versão muito mais difícil.
A eleição de 1989 nos deixou uma lição que continua atual: a democracia não se sustenta apenas com urnas. Ela se sustenta com informação de qualidade, com pluralidade de vozes, com a possibilidade real de confrontar versões diferentes dos mesmos fatos.
Quando um único grupo controla a narrativa, a democracia fica mais frágil. Quando não podemos confiar nem no que vemos, nem no que lemos, o debate público se degrada.
Em 2026, mais do que nunca, precisamos lembrar que toda informação é uma construção. Que toda edição é uma escolha.
E que a melhor defesa contra a manipulação continua sendo a mesma de sempre: desconfiar, comparar, contextualizar. Não aceitar nenhuma versão como definitiva. Buscar as fontes.
A história da edição do debate de 1989 não é apenas um episódio do passado. É um espelho que nos ajuda a enxergar o presente com mais clareza.
- LIMA, Iara. Entre o fato e a versão: a construção da realidade política na cobertura midiática das eleições de 1989. SciELO Preprints, 2026. DOI: 10.1590/SciELOPreprints.18189. (Sugestão de leitura aqui)
- SILVA, Fernanda Maurício. Mea culpa da Rede Globo: uma análise do discurso sobre o erro na cobertura do debate de 1989. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 39., 2016, São Paulo. Anais… São Paulo: Intercom, 2016. (Sugestão de leitura aqui)

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