Embora possa não parecer, há temáticas centrais que se apresentam a cada mês nas confecções dos posts deste blog. Eleições à parte, este mês a temática é ancestralidade. Pensei que a melhor forma de iniciar esse tema seria revisar um artigo para o qual pude contribuir na coleta e análise dos dados, através de um grupo de estudos científicos no qual trabalhei por um ano e meio, em apoio aos professores Renato Leite Marcondes e Lelio Luiz de Oliveira, da FEA-RP/USP. O artigo, resultado da pesquisa, foi publicado em 2025 e propõe uma nova série de dados sobre as importações de açúcar brasileiro por Portugal entre 1761 e 1807.
A historiografia econômica brasileira carecia de dados sistemáticos sobre o comércio açucareiro no período entre 1765 e 1796. Os arquivos brasileiros não dispõem desses registros. A saída encontrada foi recorrer a documentos alfandegários portugueses, que forneceram informações detalhadas sobre quantidades, origem brasileira, qualidade e impostos do açúcar.
O projeto, apoiado pela FAPESP (processo 21/01389-5), teve como objetivo reconstruir uma série das exportações de açúcar do Brasil para Portugal entre 1750 e 1800. A pesquisa também buscou relacionar essa série com as regiões produtoras brasileiras e analisar microdados como portos de embarque e desembarque, tipos de açúcar e nomes dos negociantes envolvidos.
Os resultados da pesquisa confirmam a tese do renascimento agrícola do açúcar brasileiro na segunda metade do século XVIII. Esse período foi marcado por uma crise profunda na mineração da colônia e por um desequilíbrio na balança comercial portuguesa. A economia açucareira, que já vinha de uma estrutura produtiva montada anteriormente, precisou se readaptar às condições de maior concorrência internacional, especialmente com o crescimento da produção caribenha.
Os dados verificaram um aumento significativo das exportações de açúcar brasileiro, especialmente após o início da década de 1770. Esse crescimento ocorreu apesar da estagnação da economia portuguesa, o que sugere que fatores externos e internos à colônia foram determinantes para o dinamismo do setor.
O renascimento agrícola não foi um acidente. Ele foi impulsionado por uma conjuntura internacional favorável e por políticas internas de estímulo à produção.
No plano externo, a Guerra dos Sete Anos (1756-1763) beneficiou os produtos tropicais, criando um ambiente propício para o açúcar brasileiro. Mais tarde, a guerra de independência dos Estados Unidos (1776) afetou a oferta caribenha e elevou os preços no mercado internacional.
No plano interno, a criação das companhias pombalinas de comércio, como a Companhia Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão (1755) e a de Pernambuco e Paraíba (1759), centralizou negócios em Lisboa e beneficiou o crescimento da produção na colônia. A eliminação do sistema de frotas em 1765 gerou maior liberdade mercantil, permitindo que o açúcar brasileiro circulasse com menos amarras.
A reconstrução da série de importações permite uma análise mais precisa das conexões comerciais entre Brasil e Portugal. Os microdados levantados revelam não apenas o volume do comércio, mas também a qualidade do produto de diferentes origens, os portos envolvidos e o grau de desigualdade entre os participantes do comércio de longa distância.
Falar sobre ancestralidade também envolve olhar ao passado e observar fatores econômicos. E a história do açúcar brasileiro no século XVIII é, de certa forma, uma história sobre resiliência. Em um momento em que a mineração entrava em declínio e a economia portuguesa patinava, o açúcar brasileiro encontrou espaço para crescer. Não foi um crescimento linear, nem isento de contradições. Mas foi um crescimento que ajudou a sustentar as contas externas de Portugal e que manteve a colônia economicamente relevante.
- MARCONDES, Renato Leite; OLIVEIRA, Lelio Luiz de. Brazilian agricultural renaissance: sugar imported by Portugal (1761-1807). Revista de Historia Economica, v. N/A, p. 22-pg., 2025-11-21. (Sugestão de leitura aqui)

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