Devir é uma palavra da língua portuguesa que indica ação, ou seja, um verbo. No dicionário, traduz-se por “transformar-se em”. Indica um processo de transformação. Para mim, é uma forma muito resumida de descrever minha vida em cinco letras.
Olha que, como boa escorpiana, já nasci com aquele entendimento a mais sobre os processos de transformação pelos quais todo ser humano passa ao longo da vida, mas confesso que, ao ouvir “devir”, muitos fios soltos na minha mente se entrelaçaram.
A primeira vez que ouvi o termo foi numa fala de Gimena Romero, enquanto acontecia uma live no Instagram do Clube do Bordado. Romero é artista, formada em artes plásticas e visuais pela La Esmeralda e, desde 2008, dedica-se ao bordado como expressão artística. Já publicou alguns livros, como “México bordado: De la tradición al punto contemporáneo”. Fica a recomendação, caso queira se aprofundar no mundo do bordado pelo viés histórico e acadêmico.
Mas o fato é que a fala de Romero me emocionou muito, e emociona até hoje. Ela disse:
“Bordamos hoje porque no bordado mora muita vida, e a vida nos escapa a cada dia, a cada minuto, em cada pressa. Precisa de atenção, de tanta presença, que nos obriga a ver a vida que acontece neste momento. Agora, nestes dias, nesta época, não estamos aqui somente para transmitir a técnica, mas sim para compartilhar o olhar do bordado, o devir do bordado, a encarnação do bordado que mora em cada bordadeira.”
O devir bordado é um processo de transformação em que cada mulher que borda se apoia em algo material e tangível para expressar aquilo que não consegue ser dito. Ao final do trabalho, renasce mais plena e convicta de si.
Enquanto bordamos, o processo de concentração, o foco e a dedicação a cada ponto nos mantêm no tempo presente, numa conversa em rede de apoio com outras bordadeiras ou no silêncio dos próprios pensamentos. Não importa de onde parte a execução da técnica: o fato é que bordar organiza ideias. Permite que você se reintegre, processe seus pensamentos e encontre dentro de si as respostas que sempre busca fora para problemas internos, porque é só no silêncio que aprendemos a ouvir. Esse é um processo de renascimento.
Para além do individual, o bordado também se relaciona com o mundo e a história. Por muitos séculos, serviu como forma de doutrina das mulheres; era inclusive empregado como disciplina escolar. As moças que bordavam riscos além dos permitidos eram acusadas e “julgadas” pela moral da época. Hoje, é comum encontrarmos em museus e espaços de ressignificação da arte mulheres que bordam como forma de expressão e liberdade de ser.
Roszika Parker, em seus estudos, discorre sobre as artes de armário: por muitos anos, as mulheres desenvolveram dois tipos de arte, a comercial, para ser vista pela sociedade, e a que era escondida, mas que representava seu eu mais verdadeiro. Muitas dessas artes de armário se perderam, porque essas mulheres, após a conclusão de seus devires, as autodestruíam por vergonha, por medo de não serem compreendidas ou por códigos sociais da época. E, mesmo que alguma sobrevivesse, após a morte da artista, os familiares não lhe davam a devida relevância, por considerá-la, em parte, até heresia.
O bordado desponta em muitos períodos importantes das grandes transformações humanas. Veja: durante a Primeira Guerra Mundial, os soldados utilizavam o bordado como terapia ocupacional nos processos de recuperação motora. Para Zuzu Angel, durante a ditadura brasileira, foi uma forma de denunciar a morte de seu filho e a violência do regime. Na Segunda Guerra Mundial, foi visto como ato de espionagem, pois era através de bordados que mensagens ocultas eram compartilhadas, sendo a mais conhecida delas: a Colcha de Changi.
Todos esses movimentos históricos carregam transformações individuais que se materializam em arte tangível pela linha e agulha no tecido.
Então eu te pergunto: que processo você precisa bordar hoje para também se transformar?
- Perfil Instagram do Clube do Bordado (Aqui)
- Perfil Instagram de Gimena Romero (Aqui)
- ROMERO, Gimena. México bordado: de la tradición al punto contemporáneo. Barcelona: Editorial Gustavo Gili, 2017. (Sugestão de livro aqui)
- PADILHA, Tita. Tramas invisíveis: a complexa tessitura do ser feminino como artista bordadeira. In: Fórum Bienal De Pesquisa Em Artes, 8., 2017, Belém. Anais […]. Belém: PPGARTES/ICA/UFPA, 2017. (Sugestão de leitura aqui)
- PARKER, Rozsika. The subversive stitch: embroidery and the making of the feminine. London: I.B. Tauris, 2010. (Sugestão de livro aqui)
- CINTRA, Fernanda do Nascimento; MESQUITA, Cristiane Ferreira. Design, bordado e resistência: entre Zuzu Angel e Linhas de Sampa . DAPesquisa, Florianópolis, v. 16, p. 01–26, 2021. (Sugestão de leitura aqui)
- GIL, Maria Celina. Espadas e agulhas: relações entre o bordado e a guerra. dObra[s] – revista da Associação Brasileira de Estudos de Pesquisas em Moda, [S. l.], v. 18, n. 45, p. 70–90, 2025. (Sugestão de leitura aqui)


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