16 e No Man’s Sky

4–6 minutos

Durante minha graduação, tive a honra de conviver com o professor Marco Antônio de Almeida, pesquisador nas áreas de mediação e ação cultural. Inclusive, atuei juntamente a ele como membro da Comissão de Extensão e Cultura da Universidade durante determinado período.

Foi por essa dinâmica que aprendi a olhar para a cultura pop produzida pela humanidade como algo que compreende muito mais do que apenas entretenimento. Por isso, justifico a presença, neste espaço, de textos que dialogam com assuntos tão distintos que, por vezes, pode parecer que estou divagando na temática dos meus conteúdos.

Há algum tempo escrevi um texto por aqui que já não está mais disponível. Principalmente porque, entre conflitos internos e pessoais, julguei minha voz insuficiente para comunicar uma mensagem poderosa que aquela reflexão deveria ter abordado.

Nada como o passar do tempo para amadurecer os pensamentos.

Agora volto a resgatar aquele mesmo texto, mas com uma visão mais ampla e uma voz mais direcionada ao que, de fato, eu gostaria de comunicar ao mundo.

Apresento esse raciocínio traçando um paralelo com No Man’s Sky, jogo de exploração espacial lançado em 2016 pela Hello Games. A proposta sempre foi gigantesca ao apresentar um universo gerado por etapas, formado por uma quantidade quase absurda de mundos possíveis.

Este ano, o jogo completa dez anos.

E a proposta continua maior do que a capacidade humana de explorá-la.

Isso me interessa muito mais agora do que me interessava quando escrevi aquele texto de meses atrás.

A notícia que marcou os dez anos do jogo é quase poética porque segundo dados divulgados pela Hello Games e repercutidos pela imprensa, menos de 1% dos planetas disponíveis no universo de No Man’s Sky foi visitado pelos jogadores ao longo dessa década.

Dez anos, e milhões de jogadores, e ainda não chegamos nem perto de conhecer tudo, dado este pelo tamanho da franquia.

Talvez seja aqui que eu precise voltar ao conteúdo que havia escrito originalmente antes.

No universo de No Man’s Sky, os portais são ativados por glifos. Cada combinação funciona como um endereço e permite viajar para um planeta específico. A própria estrutura do jogo transforma esses símbolos em uma espécie de linguagem para atravessar o espaço.

São dezesseis glifos.

O número aparece repetidamente na construção do jogo e se tornou um elemento recorrente de seu universo, inclusive em uma missão chamada 16/16. Quando tracei meu primeiro pensamento sobre o assunto, cheguei a elaborar um paralelo com o sistema hexadecimal, utilizado na computação, mas hoje não quero transformar o número dezesseis em uma fórmula, quero observar o que ele abre.

Porque o que me chamou atenção desde o início foi justamente isso de um conjunto limitado de símbolos capaz de produzir uma quantidade quase ilimitada de caminhos. Veja, os glifos não são o destino, mas sim a possibilidade de chegar até ele.

Existe outra coisa em No Man’s Sky que me chama particularmente a atenção que é a possibilidade de encontrar algo que ninguém mais viu.

O jogo permite registrar descobertas e compartilhá-las com outros jogadores. Você pode atravessar um planeta inteiro e não saber se foi a primeira pessoa a chegar ali. Pode encontrar uma paisagem, uma criatura, uma formação ou um mundo que, até aquele instante, existia dentro daquele universo sem jamais ter sido observado por alguém.

Isso é curioso.

Porque a humanidade construiu um universo virtual tão grande que nem seus próprios criadores conseguem esgotá-lo através dos jogadores.

É quase um lembrete tecnológico de uma coisa bastante antiga de que conhecer não é possuir.

Nós podemos mapear, catalogar, nomear e registrar.

Podemos construir sistemas inteiros de classificação para aquilo que encontramos e, ainda assim, sempre haverá alguma coisa além daquilo que conseguimos observar.

Essa ideia conversa diretamente com aquilo que venho fazendo há anos, porque eu gosto de encontrar coisas. Gosto de observar, registrar, relacionar, classificar e guardar.

Há dez anos, No Man’s Sky chegou cercado por expectativas enormes e por uma recepção inicial bastante difícil. A própria Hello Games reconhece que o lançamento não correspondeu ao que havia sido prometido e que o jogo precisou ser reconstruído ao longo dos anos.

Hoje, a história do jogo também é uma história de continuidade, em que houve atualizações constantes, mas também a presença de uma comunidade que permaneceu explorando.

Isso acrescenta outra camada ao meu 16, que não é apenas sobre um universo gigantesco, é sobre uma coisa que continua.

Um projeto que não terminou na forma como começou, um jogo que precisou atravessar a própria queda para se tornar outra coisa. E acredito que eu esteja vivenciando esse processo neste exato momento, enquanto reestruturo este espaço lentamente. O blog que existe agora não é exatamente o mesmo que existia quando escrevi aquela primeira versão, e eu também não sou.

Acredito que conseguir voltar a esse texto depois de tanto tempo, não para corrigir o que escrevi antes como quem apaga um erro, ou se envergonha da escrita, mas para atravessar novamente a mesma porta e descobrir que, do outro lado, eu já era outra pessoa.

Se menos de 1% dos planetas de No Man’s Sky foi visitado em dez anos, significa que ainda existe muita coisa para descobrir, e eu acho isso maravilhoso. Não porque signifique que estamos atrasados, mas porque a descoberta é a melhor parte, seja ela em qualquer universo.

Mas no universo de No Man’s Sky, ao menos a trilha sonora é maravilhosa.

  • DE LUCCA, Matheus; YIN-POOLE, Wesley. Após uma década de No Man’s Sky, jogadores exploraram menos de 1% dos planetas da imensidão do universo do jogo. IGN Brasil, 12 ago. 2026. (Aqui)          
  • LIMA, Michael “michaeldmelo”. No Man’s Sky comemora 10 anos da maior volta por cima dos jogos. Xbox Power, 11 ago. 2026. (Aqui)
  • MARTIN, Michael. Here Are 41 Facts You Didn’t Know About No Man’s Sky. IGN, 4 ago. 2015. (Aqui)
  • NO MAN’S Sky completa uma década e ganha nova atualização, a Cosmos. EiNerd, 11 ago. 2026. (Aqui)

Descubra mais sobre Iara Lima

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *