Talvez não seja mais correto dizer que “tudo é devir”.
O que posso afirmar é que, quanto mais observo o mundo, mais encontro imagens da transformação em diferentes culturas, mitologias e tradições simbólicas.
Não porque elas contem a mesma história, mas porque parecem tentar responder, cada uma à sua maneira, a uma pergunta profundamente humana: como nos transformamos sem deixar de ser quem somos?
É assim que leio os símbolos.
Não busco provar relações históricas entre eles, nem sugerir que pertencem à mesma tradição. Interessa-me perceber como diferentes povos materializaram experiências semelhantes através de narrativas, imagens e mitos.
Foi por esse caminho que o Olho de Hórus e a Matinta passaram a conversar dentro de mim.
Imagine caminhar pelo centro da cidade e entrar em uma loja de artigos religiosos ou esotéricos. Entre cristais, incensos e amuletos, você encontra um pingente com o Olho de Hórus.
Muitas pessoas conhecem esse símbolo como um amuleto de proteção. Essa é uma de suas leituras possíveis. Mas, para mim, sua potência está em outro lugar.
Na mitologia egípcia, Hórus trava uma batalha contra Seth durante o processo de restauração da ordem após a morte de Osíris. Nesse confronto, perde um dos olhos. Posteriormente, Thoth participa de sua restauração, permitindo que Hórus volte a se apresentar como um ser íntegro.
Independentemente das diferentes versões existentes desse mito, sempre me chamou atenção o simbolismo desse gesto.
Leio essa narrativa como uma imagem da transformação.
O olho restaurado não representa simplesmente o retorno ao estado anterior. Depois da perda, Hórus continua sendo Hórus, mas já não é exatamente o mesmo. A experiência da ruptura passa a fazer parte de quem ele é.
Talvez seja por isso que o Udyat, frequentemente traduzido como “inteiro”, “saudável” ou “restaurado”, me desperte tanto interesse. Não porque eu o veja apenas como um símbolo de proteção, mas porque enxergo nele uma metáfora da capacidade humana de reconstruir-se depois da perda.
O olho nunca permaneceu apenas no Egito.
Ele continua existindo sempre que alguém atravessa uma crise, reorganiza sua vida e descobre uma nova forma de permanecer inteiro.
Foi essa mesma ideia que me levou a pensar na Matinta.
A Matinta, ou Mati Taperê, como prefiro chamá-la, pertence ao rico universo das cosmologias amazônicas. Existem muitas versões de sua história, que variam conforme a região e a tradição oral. Em uma delas, assume a forma de uma ave noturna e percorre a noite anunciando sua presença por meio de um assobio característico. Após receber aquilo que lhe foi prometido, retorna à forma humana.
Não proponho aqui qualquer relação histórica entre a Matinta e Hórus.
As duas figuras pertencem a mundos completamente diferentes.
O que me interessa é outra coisa.
Ao colocar essas narrativas lado a lado, percebo que ambas utilizam imagens de transformação para pensar mudanças profundas na experiência humana.
Em uma tradição, a transformação acontece pela restauração.
Na outra, pela metamorfose.
São caminhos diferentes para simbolizar algo semelhante: ninguém atravessa uma experiência transformadora permanecendo exatamente igual.
O antropólogo Luís da Câmara Cascudo mostra como as narrativas da Matinta dialogam com diferentes influências presentes na formação do imaginário brasileiro. Essas múltiplas camadas tornam a personagem ainda mais interessante, pois revelam como as próprias histórias também se transformam ao longo do tempo.
Talvez esse seja o aspecto que mais me fascina nos símbolos.
Eles nunca permanecem imóveis.
Viajam entre culturas, mudam de significado, recebem novas interpretações e continuam produzindo sentido para pessoas muito diferentes.
É nesse movimento que começo a reconhecer o devir.
Não como uma característica exclusiva de Hórus ou da Matinta, mas como uma maneira de olhar para as narrativas humanas.
No fundo, não procuro descobrir se dois símbolos são iguais.
Pergunto-me por que povos tão distantes criaram imagens capazes de falar, cada uma à sua maneira, sobre perda, reconstrução e transformação.
Talvez seja nesse espaço de diálogo entre símbolos que o devir realmente aconteça.
E você?
Existe alguma história, símbolo ou imagem que o acompanha há muitos anos e que, hoje, passou a significar algo completamente diferente?


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