De Hórus a Matinta, tudo é devir?

Sim! Eu vejo devir em tudo.

Sabe quando você caminha pelo centro da cidade e esbarra numa dessas lojas esotéricas, místicas, de presentes alternativos ou de artigos religiosos, e encontra nesses locais um colar com o símbolo do olho de Hórus gravado nele?

A grande maioria dos jovens místicos de hoje olha para o símbolo e reconhece o sentido comercial, comprar para ter proteção, afugentar o mau-olhado, talvez uma cura ou uma renovação, mas deixa de perceber o quão profundo esse símbolo é e as camadas que carrega.

A história começa lá no antigo Egito, quando Hórus batalha com Seth para restaurar a ordem após a morte de seu pai. Nessa luta, Seth arranca o olho de Hórus. Em algum momento, Hórus procura o feiticeiro do reino, Thot! Aqui temos um carinho especial por Thoth, já que ele nos “deu” o tarô, mas isso é conteúdo para outra conversa.

Thoth cria e dá um novo olho a Hórus. Eu quero focar aqui nesse ponto, não em como a história se desenrola depois. Perceba que o ato de Thoth transforma Hórus em uma nova versão de si, permite que ele volte a ser inteiro, mas numa nova versão. Isso é devir!

Eu, que pesquiso devir, vejo no símbolo o processo. O Olho de Hórus é conhecido no Egito por Udyat e significa literalmente “inteiro”, “saudável” ou “restaurado”. É algo que foi restaurado após ser ferido e agora está completo. Olha eu falando de transformação novamente. Curiosamente, alinha-se com a visão de mundo dos escorpianos.

Mas aqui entendemos a camada profunda do símbolo, em vez da visão apenas comercial. O olho de Hórus para mim nunca foi sobre proteção: é sobre resiliência, sobre a capacidade de atravessar as crises da vida adulta, de buscar evolução sem perder a essência. O olho nunca esteve no Egito. Ele está em cada pessoa que precisa do símbolo.

Por isso o título fala de Hórus a Matinta: o símbolo está em todo lugar, desde que você esteja atento para percebê-lo.

A Matinta dessa história também é transformação. Alguns a conhecem por Matinta Pereira, uma versão mais portuguesa. Herança colonial! Particularmente, prefiro chamá-la de Mati Taperê.

O importante é que ela é um ser que participa da cosmologia indígena, e sua história conta que a Mati se veste de ave noturna, como uma coruja, ou às vezes um corvo, ou até mesmo o rasga-mortalha e, sob essa forma, se manifesta nas casas das pessoas, assombrando com assobios agudos e estridentes durante a noite.

O assombro só cessa quando o dono da casa promete como pagamento fumo, café ou bebida.

No dia seguinte, aparece na porta da casa uma velha para cobrar a promessa da noite anterior. Se honrada, ela sai e nunca mais volta. Mas se não honrada, ela amaldiçoa a família, e a maldição pode até seguir a linhagem da pessoa, atravessando gerações.

Essa é uma lenda amazônica. Conforme o antropólogo Câmara Cascudo discute, pode ser uma evolução ou influência de outra lenda: o Saci-pererê. Mas aqui não estamos discutindo a origem, e sim a transformação.

Perceba que a Mati dessa história se transforma literalmente em ave e depois retorna à forma humana após conquistar a sua demanda. Curiosamente Hórus também é apresentado em forma de ave, mas esse fio vou tecer em outro pensamento e noutro momento.

Podemos encontrar nessa história um eco de devir, onde a Mati, após seu processo de transformação, se integra em um ser humano novamente, mas não como era antes. A cada nova transformação, é como se houvesse um chamado (um assobio) para ser integrado.

Assim como Thoth foi o chamado de integração de Hórus, e o assobio foi o de Mati, convido você a refletir: o que te chama a se integrar?

  • PINCH, Geraldine. Egyptian Mythology: A Guide to the Gods, Goddesses, and Traditions of Ancient Egypt. Oxford: Oxford University Press, 2004. (Sugestão de livro aqui)
  • CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. 12. ed. São Paulo: Global, 2012. (Sugestão de livro aqui)

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