Por falar em serpentes…

3–5 minutos

No texto anterior, conversamos sobre a ciclicidade do devir e sobre uma das imagens que mais me fascinam quando penso nos processos de transformação: o Ouroboros, a serpente que morde a própria cauda.

Hoje quero continuar essa conversa por outro caminho, apresentando uma serpente de uma tradição completamente diferente: a Kundalini.

Embora pertençam a universos culturais distintos, sempre me chamou atenção a forma como ambas evocam ideias de energia, transformação e movimento contínuo. Não proponho aqui qualquer relação histórica entre elas. O que me interessa é o diálogo simbólico que essas imagens despertam.

Na tradição iogue e tântrica, a Kundalini é frequentemente representada como uma serpente adormecida, enrolada sobre si mesma na base da coluna vertebral. Ela simboliza um potencial latente, uma energia que já habita o ser humano e que, quando despertada, percorre os centros energéticos do corpo em direção à expansão da consciência.

O que mais me toca nessa imagem não é a ideia de ascensão, mas o fato de que tudo começa na base.

Antes de subir, a serpente repousa.

Antes da expansão, existe enraizamento.

Antes da luz, existe corpo.

Essa leitura modificou profundamente minha forma de pensar o processo criativo.

Passei a compreender que nenhuma transformação acontece apenas no plano das ideias. Toda mudança precisa atravessar o corpo, o tempo, a experiência, os afetos e até mesmo aquilo que preferimos não enxergar em nós.

Talvez seja por isso que a imagem da serpente apareça em tantas culturas como símbolo de renovação. Ao trocar de pele, ela não deixa de ser quem é; apenas continua seu processo de transformação.

Foi nesse ponto que comecei a enxergar uma aproximação simbólica com o bordado.

Naturalmente, essa não é uma interpretação presente nas tradições do Yoga. É uma associação que nasceu durante minha própria prática com a agulha e a linha.

Enquanto bordo, percebo um movimento constante.

A agulha atravessa o tecido.

Desce.

Desaparece.

Depois retorna à superfície.

Sobe.

Repete o gesto.

Cada ponto realiza esse mesmo percurso.

Com o tempo, comecei a enxergar nesse movimento uma metáfora da própria transformação humana.

A descida da agulha lembra o mergulho na matéria, naquilo que exige paciência, silêncio e permanência.

A subida devolve o fio ao mundo visível, tornando concreto aquilo que antes existia apenas como possibilidade.

O bordado, então, deixou de ser apenas um objeto terminado.

Passou a ser um gesto.

E talvez seja justamente o gesto que transforme quem borda.

Gosto de imaginar a coluna como uma linha invisível que sustenta o corpo.

A agulha, por sua vez, desenha uma linha semelhante sobre o tecido.

Não porque representem a mesma coisa, mas porque ambas falam de um eixo que conecta diferentes dimensões da experiência.

Talvez por isso eu veja o bordado como um exercício de integração.

Cada ponto exige presença.

Cada erro ensina um novo caminho.

Cada repetição modifica, ainda que discretamente, quem está bordando.

Mais adiante, outra imagem passou a dialogar com essa reflexão.

Lilith.

Não a personagem histórica nem a figura das diferentes tradições judaicas, mas a imagem simbólica que, ao longo do tempo, passou a representar a recusa da submissão e a afirmação da autonomia feminina.

Foi então que percebi uma aproximação que pertence apenas ao meu modo de interpretar símbolos.

Se a Kundalini representa uma energia que desperta a partir da própria base, Lilith me lembra a coragem de reconhecer essa força sem pedir autorização para existir.

Uma fala do corpo.

Outra da liberdade.

Ambas me conduzem à mesma pergunta:

o que acontece quando deixamos de negar partes importantes de nós mesmos?

Talvez seja justamente aí que o devir aconteça.

Não quando nos tornamos outra pessoa.

Mas quando integramos aspectos que permaneceram adormecidos durante muito tempo.

É por isso que continuo vendo a serpente como uma das imagens mais profundas da transformação.

Não porque pertença a uma única tradição, mas porque, em diferentes culturas, ela reaparece como metáfora da renovação, da passagem entre estados e da capacidade de continuar vivendo depois das mudanças.

E, curiosamente, quanto mais bordo, mais percebo esse movimento acontecendo diante dos meus olhos.

A linha desaparece.

Retorna.

O tecido muda.

E, sem perceber, quem segura a agulha também.

Talvez bordar seja, afinal, uma maneira silenciosa de despertar aquilo que sempre esteve à espera dentro de nós.

  • SARASWATI, Satyananda. Kundalini Tantra. Bihar, Índia: Yoga Publications Trust, 1996. (Sugestão de livro aqui)


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