Conversamos anteriormente (aqui) sobre a ciclicidade do devir, e lá já havia a menção à serpente Ouroboros.
Como continuação dessa conversa, quero falar hoje sobre outra serpente: a Kundalini.
Na tradição tântrica e iogue, a Kundalini é frequentemente representada como uma serpente enrolada três vezes e meia em torno de si mesma, mordendo a própria cauda, uma imagem similar ao Ouroboros.

Essa imagem não é coincidência. Ela significa: a energia que está contida em si mesma, adormecida, um potencial esperando. Ela também é um ciclo que se alimenta de si mesmo: a Kundalini não vem de fora; ela já está dentro.
E o que faz a Kundalini despertar? Não é a força bruta. É a integração. É descer nas camadas mais profundas do corpo, da psique, do inconsciente e, ao descer, encontrar a energia que estava adormecida.
Kundalini é considerada a energia primordial da Consciência Cósmica, situada na base da coluna vertebral. Quando despertada, ascende através dos chakras, promovendo a expansão da consciência.
A Kundalini não é uma energia “só espiritual”. Ela é corporal. Ela está na base da coluna, no muladhara chakra, que é o centro ligado à terra, à sobrevivência, à sexualidade, ao instinto.
Mas há um detalhe que muitas tradições esotéricas ignoram: a Kundalini não sobe sem antes ter descido. Ela está na base. Para subir, ela precisa primeiro se reconhecer na matéria, no corpo, no sangue, no instinto.
Quem tem medo da sua própria menstruação, quem rejeita a fase minguante, quem teme a descida, está bloqueando a Kundalini. Porque a Serpente não sobe por cima da sombra. Ela sobe através da sombra.
Acredita-se que o despertar da Kundalini leva a estados de consciência mais elevados, expansão da percepção e união com o divino.
Para quem borda, cada ponto que você dá é um movimento de subida e descida. A agulha desce no tecido (a descida, a matéria, o instinto, a entrega) e a agulha sobe no tecido (a subida, a luz, a consciência, a realização).
O bordado não é só o resultado. O bordado é o movimento da agulha. E a agulha, nas mãos, é a Kundalini que desperta.
Porque quando se borda, não se está apenas descendo pontos no tecido, entregando-se ao gesto repetitivo. Está também integrando se na paciência, subindo para a consciência do que está sendo criado, para a memória que se fixa, para a beleza que se manifesta.
O bordado é o caminho da Serpente. A agulha é a coluna. O tecido é o mundo. E cada ponto é um chakra que se abre.
A serpente é uma figura de grande importância espiritual e mitológica, sendo associada à sabedoria, à transformação e ao ciclo eterno de morte e renascimento.
A Serpente já foi associada ao Éden e a Eva (a segunda esposa). Agora, associe Lilith (a primeira esposa) à Kundalini.
Lilith foi banida porque não se curvou. A Kundalini, antes de ser vista como “energia divina”, também foi reprimida, temida, associada a práticas “perigosas” ou “proibidas” pelas religiões patriarcais.
Despertar a Kundalini é, para a mulher, o mesmo que reconhecer a Lilith dentro de si. É recusar a submissão. É dizer: “não vou me curvar. Vou subir, mas subir com a força da minha própria base, do meu próprio corpo, do meu próprio ciclo.”
A serpente também pode representar o ciclo da vida, com sua pele que se renova periodicamente, simbolizando renovação, transformação e renascimento.
E o bordado, nisso tudo, também representa uma forma reprimida que ecoa vários movimentos de recusa à submissão.
Que tal bordarmos uma serpente hoje?
- SARASWATI, Satyananda. Kundalini Tantra. Bihar, Índia: Yoga Publications Trust, 1996. (Sugestão de livro aqui)


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