Você já percebeu como algumas pessoas olham para a Lua e sentem que alguma coisa dentro delas também muda de ritmo?
Essa percepção acompanha a humanidade há milhares de anos. Em diferentes culturas, a proximidade entre a duração média da lunação (cerca de 29 dias e meio) e o ciclo menstrual, que varia naturalmente de mulher para mulher e de um ciclo para outro, inspirou inúmeras associações simbólicas entre a Lua, o corpo feminino e os ritmos da vida.
Essas relações não significam que os dois ciclos sejam iguais, mas ajudam a explicar por que tantas tradições passaram a enxergar na Lua um espelho dos processos de transformação humana.
Lembra quando começamos essa conversa sobre ciclos?
Hoje quero voltar a ela por outro caminho.
E esse caminho passa por Thoth.
Confesso que estou vivendo uma fase de hiperfoco nesse antigo deus egípcio da sabedoria. Mas, desta vez, não foi a mitologia que me levou até ele.
Foi o tarô.
Antes de escrever este texto, tirei uma carta. Saiu a Lua. A carta dos ciclos, do inconsciente, daquilo que cresce e diminui, aparece e desaparece. Depois pedi uma segunda carta como orientação. Saiu O Eremita. A lanterna. O tempo. O registro. Foi nesse momento que percebi uma associação que nunca havia me ocorrido.

Talvez Thoth não esteja presente nessa história porque representa um deus masculino entrando em um universo feminino.
Talvez ele esteja ali porque representa outra coisa.
O ato de observar. O ato de registrar.
Segundo um antigo mito egípcio, a deusa Nut foi impedida de dar à luz em qualquer um dos 360 dias do ano. Para resolver esse impasse, Thoth desafiou a Lua em um jogo e conquistou pequenas porções de sua luz. Com elas, criou cinco dias adicionais, conhecidos como dias epagômenos. Foi nesse tempo “fora do calendário” que Nut finalmente pôde dar à luz Osíris, Ísis, Set, Néftis e Hórus, o Velho.
Independentemente de acreditarmos ou não nesse relato, gosto da imagem que ele constrói.
Thoth não cria a vida. Ele cria o espaço para que a vida possa acontecer.
Talvez seja justamente isso que fazemos quando registramos nossos próprios ciclos. Uma mandala lunar é, antes de tudo, um exercício de observação.
Ao longo de vários meses, registramos emoções, energia, humor, menstruação, fases da Lua ou qualquer outro aspecto que desejemos acompanhar. Aos poucos, aquilo que antes parecia aleatório começa a revelar padrões.
É um trabalho silencioso. Quase o trabalho de um escriba. Penso em Thoth como um símbolo desse gesto.
Não porque ele tenha inventado a escrita da forma como a conhecemos hoje, mas porque, na tradição egípcia, tornou-se o grande patrono do conhecimento registrado, da palavra organizada e da memória preservada.
Registrar um ciclo é fazer algo muito parecido. É transformar experiências dispersas em conhecimento sobre si mesma.
É pegar o caos dos dias e organizá-lo em uma narrativa que possa ser compreendida. No fundo, bordar também faz isso. Cada ponto registra um instante. Cada cor marca uma fase. Cada fio preserva um tempo que já passou.
Talvez por isso eu goste tanto da ideia de uma mandala lunar bordada.
O tecido acaba se tornando uma espécie de calendário vivo.
Um diário que não precisa de palavras.
Na tradição egípcia, Thoth frequentemente aparece associado a Ma’at, deusa da verdade, da ordem e do equilíbrio. Gosto dessa imagem.
Conhecimento sem equilíbrio pode se transformar em frieza. Ordem sem observação pode se tornar rigidez. Os dois caminham melhor juntos.
Registrar um ciclo não impede que dias difíceis existam. Também não muda o percurso da Lua. Mas muda a maneira como olhamos para nossa própria experiência. Aquilo que antes parecia apenas confusão começa a revelar ritmo.
Aquilo que parecia acaso passa a mostrar recorrências. E, pouco a pouco, experiência se transforma em memória. Memória se transforma em conhecimento. Talvez seja esse o trabalho silencioso de todo escriba.
E você?
Que aspectos da sua vida merecem ser registrados para que, um dia, também revelem seus próprios ciclos?
- Foi usado o tarô RWS (Rider-Waite-Smith), criado por Arthur Edward Waite em 1909 e ilustrado por Pamela Colman Smith. Popularmente conhecido por ser o conjunto de cartas mais usado para os iniciantes.
- BELAUNDE, Luisa Elvira. El recuerdo de luna: género, sangre y memoria entre los pueblos amazónicos. Revista de Antropología, [S. l.], n. 8, mar. 2021. (Sugestão de leitura aqui)
- PINCH, Geraldine. Egyptian Mythology: A Guide to the Gods, Goddesses, and Traditions of Ancient Egypt. Oxford: Oxford University Press, 2004. (Sugestão de livro aqui)


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