O escriba da lua

Sabe quando você olha para a lua e sente que algo dentro de você se move junto? Pois é. Não é loucura. Antigamente, se sabia disso. Lembra que eu comecei esse pensamento aqui antes?

A proximidade entre o ciclo lunar (29,5 dias) e o ciclo menstrual (28 dias, em média) fez com que muitas culturas vissem na mulher um “micro-ciclo” da própria lua. Até os anticoncepcionais possuem 21 dias de pílulas e 7 de pausa, ou 28 comprimidos contínuos.

Mas e Thoth? – vou falar dele de novo porque estou nesse momento de hiper foco no deus egípcio da sabedoria, aquele com cabeça de íbis, sabe? Iaí, o que ele tem a ver com isso?

Puxei uma carta para escrever este texto. Saiu A Lua. A carta do inconsciente, dos ciclos ocultos, daquilo que sobe e desce como a maré. E do outro lado da mesa, pedi conselho. Saiu O Eremita. A lanterna, o tempo, o registro. O arquétipo de Thoth puro. Aí eu percebi: não é sobre um deus masculino invadindo um território feminino.

É sobre como o ato de registrar o ciclo é também um ato sagrado.

No Egito antigo, a deusa do céu, Nut, foi amaldiçoada por Rá. Ela não podia dar à luz em nenhum dos 360 dias do ano. Thoth, que nunca perdia um jogo, desafiou a Lua. Apostou 1/72 da luz dela e venceu. Com esses fragmentos de luz, criou cinco dias extras. Os dias epagômenos. Neles, Nut pariu Ísis, Osíris, Set, Néftis e Hórus, o Velho.

Sem Thoth, não haveria tempo para o nascimento. Para o ciclo. Para a fertilidade. Ele é quem abre o espaço para que a vida ocorra fora da rigidez do tempo solar. Ele é o Medidor. O Escriba. O que anota o destino de cada alma.

A Mandala Lunar é uma ferramenta de autoconhecimento. Você registra cada dia do seu ciclo menstrual ao lado das fases da lua. Depois de alguns meses, começa a ver padrões: certas emoções vêm na lua cheia, certas energias vêm na lua nova. É um bordado de dias.

Thoth entra aí como o patrono da escrita e da observação. Usar uma mandala lunar é, em essência, realizar um trabalho de escriba. É pegar o caos das emoções, aquela tristeza que vem sem aviso, aquela criatividade que explode do nada e transformar em conhecimento estruturado. Ponto por ponto.

Bordar uma mandala lunar é como registrar um ciclo menstrual no papel. Cada ponto é um dia. Cada cor é uma fase. A linha sobe e desce, como a lua. Como o humor. Como o sangue. Thoth não é quem borda. Ele é quem inventou a agulha da escrita. Quem nos deu o poder de nomear o que sentimos.

E nomear, você sabe, é o primeiro passo para transformar.

Sobre o equilíbrio hormonal e emocional: Thoth é o mediador. No panteão egípcio, ele é quem resolve as disputas entre os deuses. Quem se senta entre Hórus e Set e diz “até aqui”. No nosso corpo, ele é a mente consciente que observa o ciclo sem querer dominá-lo. Não é lutar contra a TPM. É anotar: “hoje eu estou assim”. Respirar. E seguir.

Não à toa, ele é marido de Ma’at, a deusa da ordem, da verdade, da balança. Thoth sem Ma’at vira frieza. Ma’at sem Thoth vira rigidez. Juntos, eles ensinam que registrar o ciclo é acolher o ciclo.

A lua não precisa de ninguém para brilhar. E você também não. Mas quando a gente registra, quando a gente escreve, quando a gente borda o próprio calendário aí o ciclo deixa de ser segredo e vira sabedoria.

E você, já registrou suas lunações hoje?

  • Foi usado o tarô RWS (Rider-Waite-Smith), criado por Arthur Edward Waite em 1909 e ilustrado por Pamela Colman Smith. Popularmente conhecido por ser o conjunto de cartas mais usado para os iniciantes.
  • BELAUNDE, Luisa Elvira. El recuerdo de luna: género, sangre y memoria entre los pueblos amazónicos. Revista de Antropología, [S. l.], n. 8, mar. 2021. (Sugestão de leitura aqui)
  • PINCH, Geraldine. Egyptian Mythology: A Guide to the Gods, Goddesses, and Traditions of Ancient Egypt. Oxford: Oxford University Press, 2004. (Sugestão de livro aqui)


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