Attraversiamo: atravessando as cartas que a gente tem medo

2–3 minutos

Outro dia estive em uma consulta de tarô. A pergunta era sobre questões do coração. E, pela segunda vez, apareceu o três de espadas.

A famosa carta do “coração partido”.

Minha primeira reação foi negociar.

“Mas eu preciso mesmo passar por isso?” “Não existe um caminho alternativo?”

A resposta veio quase como uma bronca:

“Você está repetindo um padrão. Precisa atravessá-lo para encerrá-lo. Evitar também é uma forma de permanecer nele.”

Achei curioso.

Se eu seguisse em frente, doía. Se eu fugisse, doía também. Foi então que percebi uma coisa. A vida nem sempre nos pergunta se queremos atravessar determinada experiência. Às vezes ela apenas responde: atravessemos.

Quem acompanha este blog já percebeu que gosto de olhar para o tarô menos como um oráculo que prevê o futuro e mais como um grande espelho simbólico.

As cartas não criam nossos medos. Elas apenas lhes dão uma imagem.

E algumas imagens realmente assustam. Durante muito tempo, por exemplo, eu tinha verdadeiro pavor do nove de espadas.

É a carta das noites mal dormidas, da ansiedade, da mente que convence a pessoa de que tudo está prestes a desabar. Olho para ela com bastante respeito.

Durante alguns anos, crises de ansiedade me fizeram acreditar que eu estava infartando. Fui ao hospital de madrugada mais vezes do que gostaria de admitir.

Hoje entendo que meu corpo não estava anunciando o fim da minha vida. Estava pedindo o fim de um padrão. Foi preciso atravessar aquilo para aprender a cuidar de mim.

Também existe o dez de espadas, que costuma representar o encerramento de um ciclo doloroso. É uma carta intensa. Mas ela traz um detalhe importante: é um dez.

Ou seja, por pior que pareça, aquela história termina ali.

Até mesmo a Morte, uma das cartas mais temidas do tarô, nunca me assustou tanto. Ao contrário. Ela sempre me lembrou que algumas versões de nós precisam acabar para que outras possam nascer.

Talvez seja isso que mais gosto no tarô. Ele não promete uma vida sem sofrimento. Também não diz que tudo dará certo. Ele apenas lembra que nenhuma carta permanece aberta para sempre. Toda carta faz parte de uma sequência. Toda noite termina. Toda estação muda. Toda roda continua girando.

Voltei para casa pensando que talvez o problema nunca tenha sido o três de espadas.

O problema era o meu desejo de encontrar um caminho que me permitisse crescer sem sentir dor. Mas esse caminho, pelo menos até hoje, eu ainda não encontrei.

Então sigo aprendendo. Uma palavra italiana que gosto de carregar comigo:

attraversiamo. Atravessemos.

Porque algumas paisagens da vida só existem do outro lado daquilo que tivemos coragem de atravessar.

  • Foi usado o tarô RWS (Rider-Waite-Smith), criado por Arthur Edward Waite em 1909 e ilustrado por Pamela Colman Smith. Popularmente conhecido por ser o conjunto de cartas mais usado para os iniciantes.

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