Este ano, quase todos os meus bordados foram botânicos. Folhas, flores, galhos, raízes. Não foi uma decisão consciente. Simplesmente aconteceu.
Hoje acho que meu inconsciente já sabia o que minhas mãos estavam procurando.
Essa história começou na faculdade.
Curiosamente, embora eu tenha cursado Biblioteconomia e Ciência da Informação, foi ali que conheci as exsicatas: plantas prensadas, secas, montadas sobre papel e cuidadosamente catalogadas em herbários. É uma das formas mais importantes que a ciência encontrou para documentar e preservar a flora ao longo do tempo.
É um método extraordinário para conservar a estrutura da planta e permitir sua identificação por gerações de pesquisadores.
Mas existe um limite inevitável. O tempo modifica as cores.
A clorofila degrada. As pétalas perdem intensidade. O verde vai se tornando castanho, o amarelo se aproxima do bege e aquilo que permanece é, sobretudo, a forma da planta. Para a taxonomia, isso basta.
Para a memória sensível da planta, talvez não.
Foi nesse ponto que uma pergunta começou a me acompanhar.
E se a gente bordasse as plantas?
Um bordado bem conservado pode manter suas cores por décadas, às vezes por muito mais tempo do que uma planta prensada. O verde continua verde. O amarelo continua amarelo. A flor deixa de depender da clorofila para existir.
Foi só este ano que percebi que era exatamente isso que eu vinha fazendo. Talvez eu nunca tenha querido colecionar plantas. Talvez eu sempre tenha querido colecionar a memória delas.
Nunca fui boa em cultivar jardins. Não sei fazer mudas e minhas plantas em vasos raramente sobrevivem. Mas descobri que sei cultivar outra coisa.
A memória das plantas.
Cada bordado acabou se tornando uma espécie de exsicata têxtil. Um herbário feito de linhas, não de papel.
São folhas que encontrei pelo caminho. Plantas que fizeram parte da minha infância. Espécies que me ensinaram alguma coisa sobre tempo, cuidado e permanência.
Meu desejo, a longo prazo, é construir um catálogo botânico bordado: um acervo têxtil das plantas que marcaram minha vida, seja porque me curaram, me ensinaram ou simplesmente me lembraram de que a natureza não é um recurso. É parente.
Mais tarde descobri que eu não estava sozinha.
Na Patagônia, por exemplo, existe a Biblioteca Bordada, vinculada ao Jardim de Nativas de Ushuaia, que utiliza o bordado para registrar espécies vegetais da região. Em diferentes partes do mundo, outras artistas também percorrem caminhos semelhantes.
A inglesa Katerina Knight incorpora flores secas aos seus bordados.
A australiana Meredith Woolnough recria a delicadeza das nervuras das folhas em delicadas estruturas têxteis.
A alemã Lora Avedian transforma suas caminhadas pela natureza em coleções bordadas.
E talvez tenha sido Caitlin Faires quem mais me atravessou. Em seu projeto Herbarium, cada flor representa a memória afetiva de alguém querido: uma avó, uma mãe, uma amiga, uma mentora.
Mas não precisamos ir tão longe para ver essas mulheres cultivarem seus jardins, aqui no Brasil temos a Duda. Maria Eduarda de Figueiredo que borda uma coleção da flora específica de cada região de nosso país. Seu Instagram é um catálogo herbal vivo.
Percebi que, cada uma à sua maneira, todas elas procuram responder à mesma pergunta: como guardar uma planta contra o tempo?
As exsicatas preservam aquilo que a ciência precisa reconhecer.
O bordado preserva aquilo que a memória deseja recordar.
A cor. A textura. O relevo. O afeto.
A planta deixa de ser apenas um registro. Ela passa a ser celebrada.
Talvez seja por isso que meu trabalho dialogue tanto com Ossaim, o guardião das folhas na tradição iorubá. Enquanto ele protege o conhecimento que brota da terra, eu tento proteger as plantas que passaram pela minha vida, costurando-as no tecido para que continuem existindo de outra maneira.
Um herbário preserva a espécie. O bordado preserva o encontro.
- Conheça Katerina Knight (Aqui)
- Conheça Meredith Woolnough (Aqui)
- SILVA, A. N. F. da; ALMEIDA JR, E. B. de; VALLE, M. G. do. Exsicatas como recurso didático: contribuições para o ensino de botânica / Exsicate as didactic resource: support for the teaching of botany. Brazilian Journal of Development, [S. l.], v. 6, n. 5, p. 24632–24639, 2020. (Sugestão de leitura aqui)


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