Devir também é cíclico?

Lógico!

Não é porque estamos falando de um processo de transformação que ele não irá se repetir em diversas fases.

Na Wicca temos a figura da deusa tríplice, geralmente representada pela simbologia das luas crescente, cheia e minguante. Essa associação às luas indica as faces da deusa como donzela (jovem), mãe e anciã. Perceba que a deusa se apresenta em várias formas de um mesmo ser, indicando a ciclicidade da vida. Esse processo de transformação pelo qual todo ser humano passa, nascimento, fase adulta e morte, se espelha nessa representação.

Ainda na lua, perceba que geralmente possuímos um calendário lunar anual com 12 lunações (às vezes podem existir 13, mas no geral as 12 lunações apresentam as mesmas fases da lua ao longo do ano). Embora tenhamos, por exemplo, 12 luas cheias, elas nunca se apresentam de forma igual. Se fotografarmos a lua em todas as fases cheias e compararmos, em uma lunação ela estará mais branca, noutra rosa, noutra vermelha, noutra amarela… essa variação é devir.

Nesse caso, a Lua retorna à sua fase a cada ciclo de 29 dias e meio, mas nunca da mesma forma: ela é restaurada ao que era, porém se apresenta de uma maneira diferente.

Ainda sobre ciclos, temos o período menstrual feminino, que em média possui 28 dias. Pela similaridade com o ciclo lunar, os povos antigos realizavam diversas associações. Por exemplo, quando a mulher menstrua na lua nova, isso é chamado de ciclo da lua branca; quando a menstruação coincide com a lua cheia, é o ciclo da lua vermelha. Se a menstruação ocorre em outras fases, podem ser associadas a fases de transição feminina. Existem muitos estudos e comparativos da mulher com a lua, mas o fato aqui é constatar que a mulher menstrua ao menos uma vez ao mês e que cada fase menstrual é diferente da outra. O corpo reage de maneiras distintas, e isso também é devir, porque através do ciclo nós nos reconstruímos fisicamente numa nova versão.

Percebe que o devir está no corpo, está nos processos da vida, está nas associações mentais, está nos campos simbólicos… devir está em tudo!

Pensando nos ciclos e sistemas cíclicos, você já viu o símbolo de Ouroboros?

O símbolo do Ouroboros (a serpente que morde a própria cauda) é a representação visual mais perfeita de Devir.

Pense bem. Devir é um fluxo permanente, um movimento ininterrupto que cria, dissolve e transforma. O Ouroboros não é um círculo estático. É uma espiral que se move sobre si mesma; não tem começo nem fim. Ele está sempre “tornando-se”. Isso é exatamente devir. Cada ciclo lunar termina e um novo começa. Cada menstruação é um fim que é também um começo. Você não volta ao ponto de partida; você retorna em um nível diferente, como uma espiral.

Na alquimia, o Ouroboros é frequentemente representado com metade branca e metade preta. Isso não é uma divisão; é uma integração. A frase alquímica sobre o Ouroboros é: “É um fogo que consome tudo, que abre e fecha todas as coisas”. O ato de consumir (a cauda) é o ato de criar (a cabeça). O ciclo menstrual “consome” o útero para que ele possa “criar” um novo ciclo.

A sabedoria não está só na cabeça. Está no corpo. Está no sangue. Está no ciclo. A descida da Roda, puxada pela Serpente, é o movimento de encarnar. É a alma descendo para a matéria para poder viver a experiência. É a Força (lembra a tiragem do tarô? Aqui)

  • PRIETO, Claudiney. Wicca: a religião da Deusa. 1. ed. rev. e ampl. São Paulo: Alfabeto, 2011. (Sugestão de livro aqui)
  • Blog da Mandala Lunar (Aqui)


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