Sim.
Quando falamos em devir, estamos falando de transformação. Mas transformação não significa um caminho reto. Muitos processos da vida retornam continuamente, ainda que nunca da mesma maneira. É justamente por isso que compreendo o devir também como um movimento cíclico.
Diversas tradições religiosas, filosóficas e simbólicas utilizam imagens de ciclos para pensar a existência. Embora pertençam a contextos muito diferentes entre si, todas oferecem metáforas interessantes para refletir sobre os movimentos de mudança. Algumas delas passaram a dialogar profundamente com minha própria compreensão do devir.
Na Wicca, por exemplo, encontramos a figura da Deusa Tríplice, frequentemente representada pelas luas crescente, cheia e minguante. Essas fases simbolizam diferentes momentos da existência: a donzela, a mãe e a anciã. Mais do que uma sequência cronológica, essa imagem convida a pensar que uma mesma vida atravessa diversas formas de ser ao longo do tempo.
A própria Lua também me oferece uma metáfora poderosa. Ao longo do ano vivemos, em média, doze ciclos lunares completos. A Lua retorna repetidamente às mesmas fases, mas nunca exatamente igual. Em determinadas épocas parece mais dourada; em outras, mais branca, avermelhada ou rosada. Ela retorna, mas retorna transformada.
Vejo nessa repetição com diferença uma imagem muito próxima do que compreendo como devir.
Algo semelhante acontece com os ciclos do corpo. O ciclo menstrual, por exemplo, possui duração variável entre as mulheres e também pode variar ao longo da vida de uma mesma pessoa. Diversas tradições estabeleceram relações simbólicas entre o ciclo menstrual e as fases da Lua. Algumas correntes contemporâneas chamam de “Lua Branca” os ciclos iniciados na Lua Nova e de “Lua Vermelha” aqueles que coincidem com a Lua Cheia. Independentemente dessas classificações simbólicas, o que me interessa é perceber que cada ciclo corporal é único. O corpo nunca retorna exatamente ao mesmo estado anterior. A cada mês, ele se reorganiza, responde de maneira diferente às experiências vividas e continua seu processo permanente de transformação.
É nesse sentido que passo a perceber o devir no corpo, na natureza e nos processos da vida.
Pensando em símbolos que representam esse movimento contínuo, poucos me parecem tão expressivos quanto o Ouroboros, a serpente que morde a própria cauda.
Para mim, o Ouroboros tornou-se uma das imagens mais potentes para pensar o devir. Não porque explique filosoficamente esse conceito, mas porque simboliza um movimento incessante de criação, dissolução e renovação. Não se trata de um círculo imóvel, mas de um fluxo permanente em que cada fim também inaugura um novo começo.
Na tradição alquímica, o Ouroboros aparece frequentemente associado à união dos opostos e à transformação contínua da matéria e do espírito. Essa imagem dialoga profundamente com a maneira como compreendo os processos humanos de mudança: não retornamos ao ponto inicial; retornamos modificados pela experiência.
Talvez por isso eu goste tanto da imagem da espiral.
À primeira vista ela parece um círculo, mas não é. Cada volta aproxima o movimento de um novo ponto, sem jamais repetir exatamente o anterior. Crescemos assim. Aprendemos assim. Bordamos assim.
O devir não elimina os ciclos. Ele lhes dá profundidade.
Cada bordado concluído encerra um processo, mas inaugura outro. Cada pesquisa respondida abre novas perguntas. Cada fase da vida deixa algo para trás e, ao mesmo tempo, prepara aquilo que ainda está por nascer.
Talvez seja isso que mais me fascine no bordado: a possibilidade de acompanhar, ponto após ponto, um processo de transformação que nunca termina completamente.
E você? Existe algum ciclo da sua vida que hoje pede para ser vivido de uma maneira diferente?


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