“Essa canção é por você
Que já cansou de escutar
Esteve vivo sem viver
Mas não deixou de acreditar”
Este trecho é parte da letra de uma música chamada Balada da Contramão, de uma das minhas bandas favoritas: A Banda Mais Bonita da Cidade.
Sim! Esse é o nome da banda.
Às vezes penso que existe um verbo pouco lembrado, mas que talvez explique mais sonhos interrompidos do que qualquer outro: dispor.
Muita gente fala. Pouca gente conjuga o verbo.
É isso.
“Esteve vivo sem viver.”
A gente tem a mania de adiar tudo o que pensa ou planeja por medo do fracasso, antes mesmo de sequer tentar. Esperamos ter certeza, segurança, planejamento, dinheiro, tempo, conhecimento, coragem. Esperamos estar prontos.
Só que talvez esse momento nunca chegue.
Nem sempre vamos ter um plano de como as coisas devem se desenvolver. Muito precisa acontecer no improviso, sendo ajustado conforme a própria experiência nos mostra. É como quando você dá o primeiro passo e percebe que a estrada não estava exatamente pronta esperando por você. Ela simplesmente começa a aparecer enquanto você caminha.
Foi assim que comecei este site.
Eu não sabia construir uma página, configurar plugins ou escrever uma linha de CSS. Aprendi porque precisava aprender. Não antes. Durante o caminho. E logo tudo será redecorado.
Existe uma diferença entre querer alguma coisa e estar disposto a atravessar o processo necessário para encontrá-la. Querer pertence ao campo da imaginação. Dispor pertence ao campo da experiência.
Quando você se dispõe, aceita que vai errar, e aceita que alguma coisa talvez precise ser refeita. É começar pequeno e descobrir, no meio do caminho, que aquilo que imaginava querer talvez não seja exatamente o que deseja construir.
Disposição não significa coragem. Também não significa confiança ou ausência de medo. Às vezes significa simplesmente fazer alguma coisa apesar de estar com medo.
É colocar o corpo em movimento antes que a cabeça tenha conseguido organizar todas as respostas.
E existe outra coisa no verbo dispor.
Ele também fala sobre colocar alguma coisa à disposição, oferecer espaço, colocar tempo, atenção, energia e presença em alguma coisa.
Talvez seja justamente aí que esteja a parte mais difícil.
“Eu vou tentar mais uma vez
Por quem não pode mais tentar“
Quando decidi me graduar novamente, não estava apenas escolhendo uma nova formação, uma segunda transição de carreira; na verdade eu estava dispondo tempo, energia e uma parte da minha vida para uma possibilidade que ainda nem sabia exatamente onde me levaria, e honestamente ainda estou descobrindo.
Já ouvi que era tarde para mudar de área, voltar a estudar ou começar do zero. Curiosamente, a universidade me ensinou exatamente o contrário.
Nunca encontrei uma idade para aprender.
Encontrei apenas pessoas em momentos diferentes da mesma travessia.
Havia pessoas começando aos vinte e outras chegando à universidade depois dos quarenta. Havia quem estivesse ali para construir uma profissão e quem estivesse simplesmente descobrindo uma nova forma de compreender o mundo.
Foi quando percebi que talvez a idade seja uma medida muito ruim para aquilo que ainda podemos nos tornar.
O problema não costuma ser a idade.
É a imagem que construímos de nós mesmos dentro da vida que imaginamos que deveríamos ter.
A gente se antecipa ao julgamento dos outros e, muitas vezes, passa a viver dentro de uma conversa que sequer aconteceu.
É curioso porque passamos muito mais tempo imaginando o julgamento dos outros do que sendo realmente observados por eles.
Enquanto pensamos sobre aquilo que alguém poderá dizer, essa pessoa provavelmente está ocupada pensando na própria vida.
No fim, muitas das limitações que acreditamos serem impostas pela sociedade já foram incorporadas por nós mesmos.
É aí que o verbo dispor volta a aparecer.
Porque se dispor também é aceitar que não controlamos completamente o resultado.
Você pode preparar o terreno, estudar, pesquisar, organizar, calcular, planejar. Ainda assim, existe uma parte do caminho que só aparece depois que você começa. Por isso que o primeiro passo é tão importante.
Não porque ele garanta que você chegará exatamente onde imaginou.
Mas porque ele produz informação, e você descobre o que funciona, e o que não funciona; e aquilo de que gosta, e aquilo que precisa abandonar.
Descobre caminhos que não estavam no mapa. E, às vezes, descobre uma versão de si mesma que não existia antes daquela experiência.
Olhando hoje para este espaço de escrita online, vejo isso com bastante clareza.
O primeiro texto que publiquei aqui também foi um salto.
Na linguagem do tarô, talvez tenha sido o Louco.
Não porque eu soubesse onde aquele salto me levaria, mas porque compreendi que alguns caminhos só aparecem depois do primeiro passo.
E talvez seja isso que eu gostaria de dizer quando falo em dispor.
Não precisamos estar prontos para começar.
Precisamos estar disponíveis para aprender aquilo que o caminho vai exigir de nós.

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