Enquanto o periódico avalia, o mundo muda

3–5 minutos

Há uma sensação curiosa que acompanha quem faz pesquisa em áreas ligadas à tecnologia.

Você escreve sobre o presente sabendo que, quando o texto finalmente for publicado, parte dele já pertencerá ao passado.

A produção científica sempre precisou de tempo. Revisão por pares, correções, novas leituras, pareceres. Esse cuidado é uma das razões pelas quais confiamos na ciência. O conhecimento precisa ser confrontado antes de circular.

O problema é que o mundo mudou de velocidade.

Hoje, enquanto um artigo percorre seu caminho editorial, novas tecnologias surgem, plataformas desaparecem, modelos de inteligência artificial são substituídos e formas inteiras de produzir informação deixam de existir.

Não é um erro do sistema. É uma mudança de escala.

Durante séculos, o conhecimento humano evoluiu em um ritmo relativamente compatível com o tempo necessário para estudá-lo. Hoje, muitas vezes, estudamos um objeto que já começou a se transformar antes mesmo de a pesquisa terminar.

Isso me faz pensar na Biblioteca de Alexandria.

Quando lembramos dela, pensamos imediatamente nos incêndios e na perda de milhares de manuscritos. Mas existe uma segunda história menos comentada.

Alexandria não era extraordinária apenas pela quantidade de livros que possuía. Ela também precisava descobrir como organizar tudo aquilo: como localizar um texto, como reunir obras sobre o mesmo assunto, como permitir que o conhecimento fosse recuperado.

Essa pergunta continua exatamente a mesma.

A diferença é que os objetos mudaram.

A Ciência da Informação desenvolveu ferramentas extraordinárias para organizar livros, documentos, fotografias, arquivos e coleções: CDD, CDU, tesauros, FRBR/LRM e MARC.

Todos esses instrumentos nasceram em um mundo em que a informação ainda cabia em categorias relativamente estáveis: livros, documentos, registros e objetos.

O século XXI, porém, começou a produzir objetos muito diferentes. Lidamos com experiências digitais, interações mediadas por algoritmos e objetos híbridos que não existiam quando esses modelos foram concebidos. Mídias como disquetes, VHS, CDs e DVDs já pertencem a outra camada histórica de transformação.

Agora falamos de sistemas que registram comportamento. Talvez, no futuro, preservemos conversas. Modelos de inteligência artificial. Jogos. Experiências imersivas. Redes sociais. Bancos de dados vivos. Interações entre pessoas e algoritmos.

Como representar tudo isso?

Como preservar algo que muda diariamente?

Como descrever uma experiência digital sem reduzir sua complexidade?

Talvez essas sejam algumas das grandes perguntas da nossa geração.

Elas não pertencem apenas à Biblioteconomia, à Arquivologia ou à Museologia.

Também dizem respeito à Computação, ao Design, à Antropologia, à História, à Filosofia, ao Direito e a todas as áreas que tentam compreender como registramos a experiência humana. E não é uma tarefa exclusiva dos cientistas da informação.

Cabe a eles a responsabilidade pela estruturação ética do que será preservado, classificado e tornado acessível no futuro. Mas isso exige uma colaboração mais ampla com a tecnologia.

Trata-se de pensar na construção de um sistema que possa ser implementado nos espaços de preservação da memória e que seja capaz de recuperar a informação independentemente do suporte em que ela esteja registrada.

Quanto mais estudo bordado, mais percebo que meu interesse nunca esteve apenas no tecido. Sempre foi a memória.

O bordado acabou se tornando uma pergunta sobre permanência.

Como guardar aquilo que o tempo insiste em transformar?

Veja, o bordado não é apenas sua forma tangível. Não são apenas as linhas nem o tecido. É a memória, o saber, a técnica e tudo o que advém desse conhecimento.

Talvez seja exatamente essa a pergunta que atravessa toda a Ciência da Informação. Não apenas guardar, mas garantir que aquilo que foi preservado continue podendo ser compreendido no futuro, por meio de um sistema capaz de recuperar a informação independentemente do objeto digital ou físico que a contenha e torná-la acessível às futuras gerações.

Enquanto escrevo este texto, centenas de pesquisadores vivem a mesma experiência: pesquisas sendo avaliadas, artigos aguardando pareceres, ideias amadurecendo em silêncio.

E isso faz parte da ciência. Mas o mundo continua caminhando enquanto esperamos.

Acredito que este seja um dos maiores desafios do nosso tempo: encontrar formas de preservar o rigor científico sem perder a capacidade de dialogar com um presente que muda todos os dias.

Porque o conhecimento não serve apenas para explicar o passado.

Ele também precisa acompanhar o futuro enquanto ele acontece.

  • ATLAS. Anunciando o Atlas Eon 100. 2024. (Aqui)
  • MOSTAFA, Solange Puntel; CRUZ, Denise Vianna Nunes. Patchwork como princípio de produção e organização do conhecimento. DataGramaZero, v. 12, n. 1, 2011. (Sugestão de leitura aqui)


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