O girassol de três mundos

2–3 minutos

O girassol aparece em lugares muito diferentes.

Na pintura de Van Gogh. Na Rainha de Paus do Tarot Rider-Waite. Na lenda da Cabocla Jurema.

Três histórias que nasceram em tempos, culturas e contextos distintos, mas que parecem costuradas pelo mesmo fio.

Começo pelo tarô.

A Rainha de Paus está sentada em seu trono entre leões. Em uma das mãos segura um bastão já coberto por brotos; na outra, um girassol. Aos seus pés, quase escondido, um gato preto observa a cena.

Nada ali parece ter sido colocado por acaso. O bastão floresce porque existe vida. O gato lembra a intuição.

E o girassol parece representar uma força que permanece voltada para a luz.

Depois encontro outro girassol.

Entre 1888 e 1889, Vincent Van Gogh pintou uma série de vasos com girassóis em Arles, no sul da França. As telas mostram flores em diferentes momentos do seu ciclo: algumas ainda fechadas, outras plenamente abertas, outras já secando. Não é apenas um vaso de flores. É o tempo acontecendo.

É o nascimento, o amadurecimento e a despedida convivendo na mesma pintura.

Talvez por isso seus girassóis continuem tão vivos. Eles não retratam uma flor perfeita; retratam uma flor vivendo.

O terceiro girassol nasce numa narrativa muito diferente.

Na tradição ligada à Cabocla Jurema, conta-se que, após seu sacrifício, do lugar onde seu sangue tocou a terra nasceu um girassol.

Aqui a flor deixa de ser objeto. Ela se torna transformação.

A vida não desaparece. Ela muda de forma.

Percebo então que os três girassóis ocupam lugares diferentes.

Na Rainha de Paus, o girassol é companheiro.

Em Van Gogh, é testemunha do tempo.

Em Jurema, é continuidade da vida.

O que muda é a narrativa. O que permanece é a ideia de transformação.

Curiosamente, existe mais uma camada.

Quando jovens, os girassóis acompanham o movimento do sol ao longo do dia. Depois de amadurecerem, costumam permanecer voltados para o leste, esperando a primeira luz da manhã.

Talvez exista uma metáfora bonita nisso.

Nem sempre amadurecer significa continuar procurando todas as direções.

Às vezes significa saber para onde olhar.

Desde que comecei a prestar atenção, passei a encontrar girassóis em muitos lugares. Nas cartas do tarô. Nos museus. Nas histórias que escuto. Nos azulejos da cozinha da casa onde moro.

Foi justamente por causa deles que escolhi a casa que habito hoje.

Girassóis são uma maneira silenciosa de lembrar que toda vida procura a luz e que aquilo que verdadeiramente nos transforma, continua florescendo muito depois do primeiro encontro com ela. (Ás vezes pode nem haver um encontro de fato!).

  • BAIRRÃO, J. F. M. H.. Raízes da Jurema. Psicologia USP, v. 14, n. 1, p. 157–184, 2003. (Sugestão de leitura aqui)


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