Ao longo da história, diferentes povos imaginaram uma figura capaz de fazer aquilo que poucos conseguem que é atravessar fronteiras.
Hermes, Mercúrio, Toth, Turms, Nabu, Exu são nomes diferentes e cosmologias diferentes, mas ainda assim, todas atribuem grande importância a personagens que mediam caminhos, transportam mensagens, traduzem linguagens e aproximam mundos distintos.
Não se trata de afirmar que sejam a mesma divindade, mas de perceber uma recorrência simbólica que atravessa culturas separadas por oceanos e séculos.
Na Grécia Antiga, Hermes é o mensageiro dos deuses. Patrono dos viajantes, comerciantes, intérpretes e daqueles que vivem entre fronteiras, ele circula com facilidade entre o Olimpo, a Terra e o mundo dos mortos. Como psicopompo, conduz as almas em sua última travessia. Seu caduceu, as sandálias aladas e o pétaso simbolizam justamente essa capacidade de transitar entre diferentes planos da existência.
Os romanos identificaram Hermes com Mercúrio, preservando muitas de suas funções e ampliando sua presença na vida cotidiana do Império.
No Egito helenístico, gregos e egípcios aproximaram Hermes e Toth, o deus egípcio da escrita, da sabedoria, da matemática e da medição do tempo. Dessa aproximação nasceu a figura de Hermes Trismegisto, “o três vezes grande”, personagem central da tradição hermética, que influenciaria profundamente a alquimia, a astrologia e diferentes correntes filosóficas do Ocidente.
Entre os etruscos, encontramos Turms, outro mensageiro divino frequentemente representado com asas e associado ao papel de guia entre mundos.
Na antiga Mesopotâmia, Nabu ocupava um lugar semelhante como deus da escrita, da sabedoria e da profecia, era considerado patrono dos escribas e guardião dos registros do destino.
Já nas tradições iorubás e nas religiões afro-brasileiras, Exu ocupa um lugar singular. Senhor dos caminhos, das encruzilhadas e da comunicação, é ele quem faz circular a palavra, abre e fecha caminhos e estabelece a mediação entre o mundo humano e o sagrado. Embora frequentemente comparado a Hermes por estudiosos da religião comparada, Exu possui uma cosmologia própria, profundamente enraizada nas tradições africanas e afro-brasileiras.
O que aproxima todas essas figuras?
A psicologia analítica de Carl Jung oferece uma leitura possível. Sob essa perspectiva, personagens tão distintos poderiam ser compreendidos como expressões de um mesmo arquétipo de o mensageiro, do mediador, daquele que estabelece pontes entre realidades diferentes.
Não é a única forma de interpretar essa recorrência, mas é uma das mais conhecidas.
Talvez isso explique por que figuras semelhantes aparecem em contextos históricos tão diversos. Cada sociedade construiu seus próprios mitos, mas muitas delas reconheceram a importância daquele que interpreta sinais, organiza conhecimentos e permite que uma mensagem atravesse fronteiras sem perder seu significado.
É um arquétipo que continua vivo.
Talvez ele apareça nos escribas da Antiguidade, nos tradutores medievais, nos bibliotecários, arquivistas, museólogos, professores, jornalistas, pesquisadores e artistas contemporâneos. Cada um, à sua maneira, trabalha transportando conhecimento entre tempos, pessoas e linguagens diferentes.
Quanto mais estudo memória e documentação, mais percebo que essa travessia também acontece na pesquisa, porque em todos esses gestos existe uma tentativa de fazer uma mensagem continuar atravessando o tempo.
Povos diferentes imaginaram figuras diferentes, mas todos pareciam reconhecer a mesma necessidade de ter alguém que atravessasse fronteiras, traduzisse linguagens e fizesse circular aquilo que não pode permanecer imóvel.
No fundo, comunicar talvez sempre tenha sido isso. Construir pontes onde antes havia apenas distância.
- CÉSAR, Danillo. Hermes Trismegisto e a intenção do texto hermético. Classica – Revista Brasileira de Estudos Clássicos, [S. l.], v. 38, p. 1–20, 2026. (Sugestão de leitura aqui)
- EFFGEN, André Luís Silva. Entre Thoth e Hermes Trismegisto: as cosmogonias egípcias na literatura hermética. 2023. 174 f. Dissertação (Mestrado em Ciências das Religiões) – Centro de Educação, Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2023. (Sugestão de leitura aqui)
- VIEIRA, Thiago B. Hermes Trismegisto e o Corpus Hermeticum: um estudo sobre a relação do hermetismo com o pensamento filosófico renascentista. 2018. 33 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Filosofia) – Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2018. (Sugestão de leitura aqui)

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