Hórus, Matinta e Thoth: simbologia aviária

Sabe quando você começa a perceber um mesmo símbolo em histórias diferentes? Pois é. Aconteceu comigo quando eu estava pesquisando o Olho de Hórus e a Mati Taperê.

Ambos são aves. Ou melhor, ambos se vestem de aves.

Hórus, o deus egípcio dos céus, é representado como falcão, ou como um homem com cabeça de falcão. A Matinta, nossa Mati-Taperê da Amazônia, se veste de ave noturna: seja ela a coruja rasga-mortalha, ou o pássaro Tapera naevia, ou até mesmo como um corvo. Ela assobia dos telhados e só se revela como velha no dia seguinte.

Duas culturas distantes, dois mitos sem conexão histórica, duas aves.

E eu fiquei me perguntando: por que a ave? O que ela tem de tão especial para estar no centro dessas histórias de transformação?

A resposta veio de um lugar inesperado: a psicologia arquetípica.

Carl Jung dizia que os pássaros, nos sonhos e nos mitos, são símbolos da transcendência. Eles voam. Eles enxergam de cima. Eles fazem o que nós, humanos de pés no chão, não conseguimos: uma coisa que se vê do alto é diferente de uma coisa que se vive embaixo. E isso é a própria alma em movimento.

A Mati não é só uma velha chata que assovia. Ela é uma mulher que se torna ave, que se permite ver o mundo de outra altura, mesmo que por uma noite. E quando ela retorna à forma humana, já não é a mesma. Ela cobra. Ela transforma. Ela é devir.

Hórus, da mesma forma, não vence Seth só com força bruta. Ele vence porque, depois de perder o olho, Thoth o restaura e ele enxerga de novo, mas de um jeito novo, com a visão do falcão. O voo não é só movimento. É perspectiva.

O pássaro me ensina que transcendência não é sobre sair do corpo. É sobre ver o próprio chão de um ângulo que você nunca tinha visto antes.

E Thoth? Ele é o deus da escrita, da sabedoria, da magia. Ele restaura o olho de Hórus, mas também é representado como íbis, uma ave de bico curvo que percorre as margens do Nilo. Thoth não está no céu. Ele está na lama. É um pássaro que caminha pela terra antes de voar.

Essa imagem me toca. Transcender não é negar o que é pesado. É aprender a caminhar com ele e, de repente, dar um voo rasteiro, levantar-se um pouco, ver o horizonte e voltar.

Nos meus bordados, penso nisso. A ave que eu bordei hoje não é só um desenho. É um gesto de elevação a partir da matéria. A linha sobe, desce, como o voo de quem nunca chega no céu, mas também nunca desiste de tentar.

A Matinta assobia. Thoth escreve. Hórus sobrevoa.

O pássaro, no fundo, é isso: o movimento que recusa a paralisia. O devir que não se acomoda. A asa que insiste em bater mesmo sabendo que o céu é longe.

E você, de onde vai olhar para o seu chão hoje? De cima da árvore ou dentro da lama? Os dois são altitude, desde que você se mova.

  • JUNG, Carl G. et al. O homem e seus símbolos. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008. (Sugestão de livro aqui).
  • CAPEL, Carol. Arquétipos: a chave secreta para moldar a realidade. [S. l.]: Independently Published, 2025. (Sugestão de livro aqui).


Descubra mais sobre Iara Lima

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *