Impermanência no silêncio

2–3 minutos

O silêncio não é estático, ele obriga a impermanência. E existe um tipo de grito que não nasce do medo. Nasce quando alguma coisa dentro de nós finalmente se recusa a permanecer em silêncio.

Pois é exatamente sobre isso que fala o artigo da Anna Figueiredo (linkado nas fontes ao final) sobre o clipe “Everybody Scream” de Florence + The Machine.

Durante séculos, bastava que uma mulher escapasse do papel esperado para que se tornasse suspeita. Viúvas, parteiras, mulheres que herdavam propriedades, que viviam sozinhas ou simplesmente falavam demais podiam ser acusadas de bruxaria.

É nesse contexto que entra o clipe da Florence Welch. A diretora Autumn de Wilde pegou todo esse simbolismo de opressão e subverteu em uma cena em que as bruxas são as que libertam.

Uma das cenas mais marcantes do clipe acontece quando Florence cospe um amor-perfeito. Coincidentemente, bordei um amor-perfeito, durante um encontro do Clube do Bordado este ano.

O amor-perfeito está associado ao pensamento desde a tradição francesa. Lá, seu nome é pensée, palavra que significa justamente “pensamento” ou “lembrança”. Durante séculos, oferecer essa flor significava dizer: “estou pensando em você”.

Então a cena do clipe em que envolve a aparição da flor, parece transformar o pensamento reprimido em matéria visível.

Os gritos deixam de representar possessão ou sofrimento. Tornam-se um ritual coletivo de libertação, e não existe apenas uma mulher gritando, mas sim um coro inteiro.

Enquanto assistia ao clipe, percebi que essa ideia também atravessa a escrita deste blog.

Quando a canção aproxima feitiço, medicina, colheita e agulha, sinto como se vários fios deste próprio blog se encontrassem num mesmo ponto. Há meses escrevo sobre plantas, ciclos, cura e bordado. Talvez nunca tenha percebido que todos esses caminhos desembocavam exatamente aqui.

“The witchcraft, the medicine, the spells and the injections
The harvest, the needle protect me from evil”

Essa obra nos lembra que a voz também pode ser uma forma de magia. E que algumas feridas só começam a cicatrizar depois que finalmente encontram som.

  • DE ALMEIDA FIGUEIREDO, A. F. O poder do grito e a liberação da raiva feminina: a estética do monstruoso e do grotesco presente em Everybody Scream de Florence + The Machine. Sacrilegens , [S. l.], v. 22, n. 3, p. 58–79, 2026. (Sugestão de leitura aqui)
  • HUTTON, Ronald. Grimório das Bruxas. Tradução de Fernanda Lizardo. Rio de Janeiro: DarksideBooks, 2021. (Sugestão de livro aqui)
  • WELCH, Florence. Inútil magia: o livro oficial da compositora de Florence + The Machine. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2022. (Sugestão de livro aqui)


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