Este texto transborda Meraki.
Eu tenho muitos desejos de consumo capitalista. Alguns podem ser classificados como fúteis e desnecessários, e eu concordo. Considerando os rumos da nossa sociedade e tantas necessidades muito mais urgentes, não existe exatamente uma justificativa grandiosa para querer determinadas coisas.
Ainda assim, alguns desejos permanecem.
O meu tem nome, marca, modelo, edição especial e ano de lançamento. Está presente nos meus pensamentos desde que eu tinha 14 anos.
É uma Ibanez JEM77, (Floral Pattern 2), na cor preta.
Eu poderia encerrar o texto aqui.
Quem sabe do que estou falando provavelmente já entendeu por que este texto transborda Meraki.
Para quem não sabe, a JEM é uma guitarra elétrica produzida pela Ibanez como modelo de assinatura do guitarrista norte-americano Steve Vai. O que me interessa nela, porém, não é apenas a associação com o músico.
Essa guitarra possui um acabamento floral aplicado sobre o corpo do instrumento. O padrão é impresso em tecido e incorporado à superfície da madeira, recebendo posteriormente uma camada de verniz transparente. A ideia de revestir a madeira do instrumento com tecido partiu do próprio Vai. Que inclusive tornou como assinatura dos modelos JEM a aplicação floral no braço do instrumento. Esse floral específico teve inspiração nas cortinas da casa de Steve Vai.
Ou seja.
Eu, bibliotecária, pesquisadora, bordadeira e pessoa que passa uma quantidade questionável de tempo pensando em tecidos, resgatei uma lembrança de que aos 14 anos queria uma guitarra revestida em tecido.
Talvez estivesse tudo destinado a acontecer.
O modelo original da JEM77FP foi lançado em 1988 e permaneceu em produção durante muitos anos, com diferentes períodos e versões, e eu a conheci em 2003. Mas o lançamento da Floral Pattern 2, que ocupa meu imaginário, apareceu posteriormente, em uma nova configuração lançada em 2013.
Mas existe uma segunda história aqui que me interessa, que é a própria origem curiosa da Ibanez.
A história da marca remonta à Hoshino Gakki, empresa japonesa que começou sua trajetória ligada ao comércio de livros e partituras. Posteriormente, a empresa passou a produzir instrumentos musicais e adotou o nome Ibanez, inspirado no luthier espanhol Salvador Ibáñez.
Em determinado momento, a marca chegou a enfrentar problemas judiciais porque alguns de seus instrumentos eram considerados semelhantes demais aos modelos produzidos por fabricantes norte-americanos.
Após esses conflitos, a Ibanez passou progressivamente a construir uma identidade própria e desenvolveu modelos associados a músicos específicos, transformando instrumentos de assinatura em parte importante de sua estratégia e de sua identidade.
Vieram nomes como Joe Satriani, Paul Gilbert, Kiko Loureiro, Omar Rodríguez-López, Pat Metheny, John Scofield, Tosin Abasi e Nita Strauss.
E Steve Vai.
Aqui cabe incluir adições nacionais nas parcerias entre a Ibanez, e o destaque é a banda Angra, cujos nomes associados aos instrumentos de assinatura são: Felipe Andreoli, Marcelo Barbosa e Kiko Loureiro, mas há outros.
Talvez seja justamente essa trajetória que torne a guitarra ainda mais interessante para mim.
Uma marca que começou comercializando livros, o que torna ainda mais significativo para a bibliotecária, mas posteriormente passou a fabricar instrumentos. E com o tempo, a Ibanez construiu uma identidade reconhecida justamente por seus desenhos próprios e suas colaborações com músicos.
Existe uma pequena história de transformação escondida dentro de uma guitarra.
E existe outra história, muito menor, acontecendo dentro do meu desejo por ela.
Quando eu tinha 14 anos, eu era apaixonada por guitarras, ainda sou.
Meu tio tinha uma Gibson e foi ele quem me deu minha primeira guitarra, uma Tonante preta. Não era uma JEM, nem de longe.
Mas talvez seja justamente por isso que a memória tenha permanecido, já que alguns objetos entram na nossa vida sem nunca realmente sair dela.
Certas memórias ficam adormecidas em algum lugar, até que uma imagem, uma música, uma pesquisa ou simplesmente uma fase diferente da vida acorda aquilo que parecia ter sido esquecido.
Ultimamente, tenho estudado padrões matemáticos, sistemas, e me reencontrei com a música e relações entre estruturas que aparentemente pertencem a mundos diferentes. E, no meio desse percurso, a guitarra voltou.
Não necessariamente porque eu precise dela, eu definitivamente não preciso, mas ela representa uma versão adolescente de mim que ainda não desapareceu completamente.
E existe uma ironia bonita no fato de que o objeto que despertou essa memória seja justamente uma guitarra revestida de tecido, poderia ter sido qualquer outro material.
No fim, eu continuo voltando para as mesmas coisas, tecidos, imagem, música, bordado, símbolos. Memória principalmente. Se você pesquisar por aqui encontrará um texto em que falei sobre a descrição acurada de minha Pallas no meu mapa astral como forma simbólica de interpretação sobre como eu me relaciono com a memória.
Talvez seja isso que eu queira dizer quando falo que este texto é Meraki.
Ele não precisa contribuir para uma pesquisa, não precisa ensinar como tocar guitarra, explicar a história completa da Ibanez ou justificar por que eu ainda quero uma guitarra que conheci na adolescência.
Ele só precisava existir.
Porque algumas coisas que fazemos simplesmente porque gostamos também dizem alguma coisa sobre quem somos.
Neste momento, estou novamente fascinada por padrões matemáticos, sistemas e música. Em outro momento será outra coisa. Eu tenho desses hiperfocos.
E tudo bem.
A menina que gosta de guitarras pode conversar com a mulher que borda, e a bibliotecária pode se interessar por uma guitarra. Assim como a pesquisadora pode passar horas investigando um tecido aplicado sobre madeira.
E a pessoa que escreve sobre memória pode descobrir que alguns objetos são capazes de guardar versões de nós mesmos.













Fonte: Reference Music Center.
Nota da autora: apenas observe as guitarras.

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