Quem estudou Biblioteconomia sabe que classificar nunca é uma tarefa simples.
Existem textos científicos, ensaios, relatos, receitas, diários, cartas, memórias…
E existem aqueles que simplesmente não cabem em nenhuma dessas categorias. Foi tentando organizar este blog que encontrei uma palavra do grego moderno que parecia ter sido criada justamente para eles:
Meraki.
Não existe uma tradução exata para o português.
De maneira geral, a palavra descreve o ato de fazer alguma coisa colocando nela uma parte de si. É dedicar tempo, atenção e afeto ao que se cria.
É cozinhar com cuidado. É bordar um detalhe que talvez ninguém perceba. É escrever porque a ideia simplesmente precisa encontrar um lugar para existir.
Os textos reunidos sob este selo nascem assim. Eles não são artigos científicos.
Também não pretendem convencer ninguém de uma determinada ideia.
São reflexões, lembranças, inquietações e pequenas descobertas que surgem durante o caminho. Muitas vezes, uma pesquisa começa exatamente desse jeito.
Primeiro aparece uma pergunta. Depois a curiosidade.
Só mais tarde vêm os livros, os artigos e as referências.
Nem toda pergunta precisa terminar em um periódico científico. Algumas existem apenas para registrar um momento da vida. É esse espaço que Meraki ocupa.
Aqui, a experiência pessoal é o ponto de partida. Às vezes uma caminhada.
Às vezes uma música. Uma conversa. Uma lembrança de infância. Um cheiro que atravessa a cozinha. Uma cena observada pela janela.
São textos escritos sem a pretensão de concluir um assunto.
São convites para pensar junto. Talvez seja por isso que eu goste tanto dessa palavra.
Ela lembra que criar também é uma forma de cuidado.
Há quem borde. Há quem cozinhe. Há quem plante. Eu escrevo.
E, de vez em quando, algumas palavras simplesmente pedem para existir antes mesmo de encontrarem todas as suas referências.
É para elas que este selo existe.
Meraki.
Escrever com presença. Escrever com cuidado.
Escrever colocando um pouco da própria alma naquilo que fica.
Nota da autora: O azulejo português não veio da Grécia. Mas a mão que o pintou, que passou horas misturando azul cobalto, que acertou cada linha geométrica, que deixou um pedaço de si no barro cozido, essa mão é irmã da mão da ceramista grega antiga. Ambas praticam Meraki. Ambas sabem que o que fazem vai durar mais do que elas.


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