O coelho, a lua e o avião que caiu do céu

3–5 minutos

Preâmbulo: Este texto, quando foi escrito, trabalhava uma expressão que hoje já não reflete o direcionamento que o projeto Devir Bordado assumiu. Porém, o conteúdo aqui descrito é de extrema importância como via de expressão de minha parte; portanto, seguirá sem nenhuma alteração, pois possui como fundamento principal fornecer acolhimento, mesmo que a fonte de inspiração desse texto nunca o encontre. Cada palavra escrita buscou cuidadosamente ofertar reconhecimento, identificação, calma, colo e passagem, afinal toda grande transformação não se completa antes do fim.


“Fé cega, eu grito aos deuses em fúria!” — é assim que começa a letra da música Visions, de Alice Merton. (Blind faith, I scream to the gods in rage!)

Mas venha cá… que essa música é densa. Eu sempre a achei muito pesada, e hoje quero conversar sobre isso.

A música fala de uma visão que não se pode desver, mesmo quando o mundo inteiro tenta te convencer do contrário. Fala de uma sensação de afogamento em uma piscina de dúvidas. É uma canção sobre insistir, sobre proteger o que se vê mesmo quando ninguém mais vê.

É sobre transformação. É devir, mas é um devir mais cru, mais bruto, daqueles que faz a gente pensar: “não consigo quebrar meus próprios hábitos”. (…break into your habits)

“… uma bagunça por todos os lados” – (A mess all around)

E no final, quase como um presságio, ela solta: “a plane crashing down“.

Um avião que cai.

Foi aí que minha mente, que já não consegue mais separar os fios que tece, começou a fiar esses pensamentos.

Alice Merton se conecta muito diretamente com Alice, a menina que caiu na toca do coelho.

O coelho que estava atrasado para algo muito importante. O coelho de Alice é um guia que corre. Ele não espera. Ele te provoca a segui-lo ou a ficar para trás. É um chamado que não pode ser ignorado assim como o assobio da Matinta. É algo que rompe a estrutura de forma irreversível.

Falando de assobios e coelhos: Frank também é um chamado, também é um guia para o fim de um ciclo. E nesse ciclo, ele cronometra o tempo.

Quanto tempo ele dá? 28 dias, 6 horas, 42 minutos e 12 segundos. (Preciso, não?)

Sabe quanto tempo dura uma lunação? Pois é.

“(I see the visions on the screen, but it plays, it only plays for me)” — porque parece que só faz sentido na minha cabeça, mas vou explicar. (Porque hoje se completa uma lunação de um mês atrás, ou algo assim).

Embora a duração matemática de uma lunação não seja fixa (oscila por volta dos 29 dias), é fato que muitas sociedades do passado a associaram ao ciclo menstrual feminino pela proximidade do período em 28,6 dias. Já falei sobre isso aqui em alguns muitos textos, e não vou repetir os pensamentos, e nem estou colocando tudo numa mesma caixa, estou apenas refletindo.

Associo aqui outros tipos de sangramentos: não necessariamente o físico, mas os emocionais, os psicológicos, feridas de transição que precisam de tempo para se fechar. E mesmo cicatrizadas, a dor ainda pode acontecer.

O avião que cai é a ruptura que eu pesquiso, o 1/64 que falta, o pedaço que não se encaixa e que, justamente por isso, mantém o movimento.

A menina Alice, quando caiu na toca, não parou de cair. Caiu por tempo suficiente para esquecer o medo, para estranhar o mundo de cima e se acostumar com o de baixo. Comeu do que a fez crescer, bebeu do que a fez diminuir, e aprendeu que as regras lá embaixo são outras.

O tempo não é uma linha reta. É um buraco de coelho. É uma lunação. É um ciclo que se repete até que a lição seja aprendida.

A cantora Alice canta sobre não perder a visão. Sobre como, às vezes, a gente está só ouvindo a música, sem saber que ela é, na verdade, um chamado.

O motor precisa ser ligado. O ciclo vai se encerrar. A lua vai completar sua volta. E no final, como na canção, como na toca, como no céu que se rasga, algo acontece.

Não há pressa. Cada ciclo tem seu tempo. Cada ferida, seu fechamento. Cada transformação, seu silêncio.

Toda grande transformação não se completa antes do fim.

Atravessar, às vezes, é só continuar.

Nota da autora: este vídeo pode desencadear convulsões em pessoas com epilepsia fotossensível. Recomenda-se cautela ao assistir.

  • Donnie Darko, 2001. Direção de Richard Kelly. (Sugestão de filme aqui)
  • Alice no país das maravilhas, 2010. Direção de Tim Burton. (Sugestão de filme aqui)
  • A conexão entre os dois mundos {“Mad World”: Following the Rabbit in Donnie Darko (2001) and Alice in Wonderland}. (Sugestão de leitura aqui)


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