O feiticeiro do Egito

3–4 minutos

Por que Thoth continua sendo uma das figuras que mais me fascinam?

A resposta mudou com o tempo.

No início, eu o via principalmente como o deus da magia, da escrita e do conhecimento. Hoje continuo reconhecendo esses atributos, mas passei a enxergar algo ainda mais interessante: Thoth representa uma das mais antigas imagens do poder transformador da palavra.

Ao longo de mais de três mil anos, diferentes tradições reinterpretaram sua figura.

No Egito Antigo, Thoth era o deus associado à escrita, à sabedoria, ao cálculo do tempo, à medição, aos registros e àquilo que os egípcios chamavam de Heka, termo que costuma ser traduzido como “magia”, mas que também expressa a ideia de um poder criador presente na própria ordem do universo.

Em muitos mitos egípcios, Thoth aparece restaurando a ordem por meio da palavra, do conhecimento e da escrita.

Mais tarde, durante o período greco-egípcio, sua imagem foi aproximada da do deus Hermes. Dessa aproximação nasceu a figura de Hermes Trismegisto, personagem central da tradição hermética, à qual seriam atribuídos diversos textos filosóficos e esotéricos reunidos sob o nome de Corpus Hermeticum.

Séculos depois, correntes esotéricas europeias também passaram a associar Thoth ao tarô, à alquimia e à magia cerimonial.

São tradições diferentes.

Cada uma construiu sua própria leitura dessa figura.

O que me interessa não é decidir qual delas é a “verdadeira”, mas observar como todas reconheceram em Thoth uma mesma qualidade: o poder da linguagem como instrumento de transformação.

Talvez seja por isso que ele continue despertando tanto interesse.

Na tradição egípcia, escrever nunca foi apenas registrar informações.

Os hieróglifos eram chamados de Medu Netjer, expressão frequentemente traduzida como “Palavras Divinas”. Nomear algo significava participar de sua existência. A escrita não era compreendida apenas como representação do mundo, mas como parte da própria ordem que sustentava a realidade.

Essa ideia sempre me impressionou.

Naturalmente, não compartilhamos hoje a mesma compreensão religiosa dos antigos egípcios. Ainda assim, continuo encontrando nela uma reflexão profundamente atual.

Escrever transforma. Nem sempre transforma o mundo inteiro. Mas transforma quem escreve. E, às vezes, transforma também quem lê.

Quando penso em Thoth, lembro imediatamente da cena do Julgamento de Osíris. Enquanto Anúbis pesa o coração diante da pena de Maat, é Thoth quem registra o resultado.

Ele observa. Escuta. Escreve.

Sua função não é dominar pela força, mas organizar o conhecimento.

Talvez seja justamente isso que mais me aproxima dele. Não porque eu veja pesquisadores como feiticeiros. Mas porque toda escrita carrega consequências.

Um artigo científico modifica debates. Um livro preserva uma memória.

Uma tese inaugura novas perguntas. Um bordado registra uma experiência.

Toda vez que produzimos conhecimento, deixamos uma marca no mundo.

Foi por isso que comecei a enxergar em Thoth uma imagem simbólica do pesquisador.

Não no sentido religioso. Nem como patrono exclusivo da ciência.

Mas como um arquétipo que reúne qualidades fundamentais para quem dedica a vida à investigação: curiosidade, rigor, observação, memória e compromisso com a palavra.

Ao longo dos séculos, muitos mitos atribuíram a Thoth livros secretos, fórmulas mágicas e conhecimentos reservados aos iniciados.

Independentemente do valor histórico dessas narrativas, gosto de perceber como elas revelam um fascínio antigo pela ideia de que o conhecimento transforma quem o busca.

Talvez toda biblioteca guarde um pouco dessa mesma promessa. Não a promessa do poder sobre os outros. Mas a possibilidade de ampliar nossa maneira de compreender o mundo.

É nesse ponto que Thoth continua vivo para mim.

Não apenas como personagem da mitologia egípcia. Mas como uma imagem que recorda a responsabilidade de quem escreve. Escrever nunca é um gesto neutro. Toda palavra organiza uma memória. Toda memória influencia uma interpretação. E toda interpretação pode transformar a forma como habitamos o mundo.

Talvez essa seja a verdadeira magia da escrita.

Não a de lançar feitiços.

Mas a de modificar silenciosamente aquilo que somos capazes de pensar.

  • RITNER, Robert Kriech. The Mechanics of Ancient Egyptian Magical Practice. Chicago: The Oriental Institute of the University of Chicago, 1993. (Sugestão de leitura aqui)


Descubra mais sobre Iara Lima

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *