Já parou para pensar como seria encontrar um item específico em uma biblioteca que reúne mais de 184 milhões de itens?
Não estou falando de encontrar um livro em uma estante.
Estou falando de encontrar alguma coisa em um dos maiores acervos documentais do mundo.
A existência de uma biblioteca desse tamanho parece quase impossível quando pensamos na quantidade de informação que precisa ser organizada para que aquilo que foi preservado possa ser encontrado novamente.
E talvez seja justamente aí que esteja uma das coisas mais interessantes da Biblioteconomia. Uma biblioteca não é apenas um lugar onde documentos são guardados, ela é um sistema criado para tornar possível encontrá-los.
Na Ciência da Informação nós não estudamos os livros como objetos físicos, nem documentos específicos, porque todos são suportes. Nós estudamos e classificamos a informação.
Muito antes do papel, o conhecimento já era registrado e organizado em suportes completamente diferentes. Na Mesopotâmia, tabuletas de argila com escrita cuneiforme preservaram documentos administrativos, religiosos, literários, científicos e jurídicos durante milhares de anos.
Alguns desses conjuntos são chamados de bibliotecas ou arquivos, embora essas categorias nem sempre correspondam exatamente ao que entendemos hoje por uma biblioteca.
E isso já nos ensina alguma coisa.
Organizar conhecimento nunca foi uma tarefa simples.
E também nunca existiu um único modelo.
A antiga cidade de Ebla, na atual Síria, revelou milhares de tabuletas que estavam organizadas em diferentes espaços do palácio. Séculos depois, em Nínive, a coleção associada ao rei assírio Assurbanípal reuniu dezenas de milhares de tabuletas e fragmentos, muitos deles contendo textos copiados, reunidos ou produzidos por ordem do próprio rei.
Quando falamos de bibliotecas antigas, existe uma tendência de imaginar que o problema era simplesmente guardar o conhecimento, mas guardar é apenas uma parte da questão, já a outra é saber onde aquilo está.
E é esse o ponto em que a humanidade há milhares de anos vem se questionando.
A Biblioteca de Alexandria fundada no Egito helenístico, representou uma mudança importante na própria concepção de biblioteca. O conhecimento não deveria apenas ser acumulado, mas deveria ser consultado, estudado, comparado e utilizado.
A biblioteca deixa então de ser apenas depósito, para ser também infraestrutura para o conhecimento.
Séculos depois, os acervos se tornaram ainda maiores e os problemas de organização também.
A Library of Congress, nos Estados Unidos, possui atualmente mais de 184 milhões de itens físicos e mantém coleções que incluem livros, manuscritos, mapas, fotografias, partituras, filmes, gravações e materiais digitais.
E para se localizar determinada informação nesse acervo, é preciso de um sistema de classificação, uma espécie de arquitetura invisível que atua dentro da biblioteca. E existem diferentes sistemas porque existem diferentes necessidades.
A Classificação Decimal de Dewey, criada por Melvil Dewey em 1876, organiza o conhecimento em grandes classes numéricas que podem ser progressivamente subdivididas. A Classificação Decimal Universal, desenvolvida posteriormente a partir da proposta de Dewey, ampliou essa lógica para permitir relações mais complexas entre assuntos. A Library of Congress, por sua vez, utiliza um sistema próprio baseado em letras e números.
Se eu procurar um livro sobre bordado em uma biblioteca que utilize CDD posso encontrar a classificação 746.44, dentro da área de artes têxteis. Em um sistema baseado na LoC, obras gerais sobre bordado podem aparecer em NK 9200, dentro da área de artes decorativas. Perceba que não há uma classificação exclusiva para o bordado, e isso já se tornou tema de meu trabalho de conclusão de curso. Mas o interessante não é decorar esses números, é só perceber o que eles fazem, porque transformam uma palavra em um endereço.
“Bordado” deixa de ser apenas uma palavra escrita no título de um livro e passa a ocupar uma posição dentro de uma estrutura maior. E essa estrutura permite estabelecer relações.
É por isso que uma boa classificação pode produzir descobertas que não estavam necessariamente previstas na busca original. A organização do conhecimento não apenas permite encontrar aquilo que já procurávamos, ela também pode nos mostrar aquilo que ainda não sabíamos que procurávamos.
E existe uma diferença importante entre classificar e organizar. Classificar é estabelecer uma relação entre um objeto e uma estrutura, já organizar é criar condições para que essa relação seja recuperada posteriormente.
O número na lombada, por exemplo, não é simplesmente uma etiqueta, ele funciona como um endereço dentro de determinado sistema.
E, quando você consegue encontrá-lo, existe também a realização de uma promessa antiga da Biblioteconomia de que aquilo que foi preservado pode ser novamente encontrado.
- BUCKLAND, M. K. Information as thing. Journal of the American Society for Information Science (JASIS). v.45, n.5, 1991. p.351-360. (Obra original não disponível online)
- CAVALCANTI, Cordelia R. Indexação & tesauro: metodologia e técnicas. Brasília: Associação de Bibliotecários do Distrito Federal, 1978. 89 p. (Obra original não disponível online)
- CDU: guia para utilização da edição padrão internacional em língua portuguesa. Brasília: Thesaurus, 2009. 199p. (Manual não disponível online)
- DEWEY, Melvil. Dewey Decimal Classification and Relative Index. 22. ed. Albany : Forest Press, 2003. 4v. 694 p. (Manual não disponível online)
- Library of Congress Classification PDF Files – página online de acesso a todo o banco de dados de classificação aqui.

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