No texto anterior, falei da floresta como monumento. Uma paisagem construída ao longo de milhares de anos pelas mãos de povos indígenas.
Hoje quero olhar para ela de outro jeito. Como mistério.
Porque a mata também guarda conhecimento. Ela abriga remédios, alimentos, histórias e caminhos que nem sempre estão escritos em livros.
Nas tradições de matriz iorubá, preservadas e recriadas no Brasil por religiões como o Candomblé e a Umbanda, dois Orixás têm uma ligação profunda com esse universo: Oxóssi e Ossaim.
Oxóssi é o caçador.
Não apenas o caçador de animais, mas o buscador. Aquele que entra na mata sabendo observar. Seu símbolo é o ofá, o arco, e sua flecha.
Conta um antigo itan que, enquanto outros caçadores desperdiçavam inúmeras flechas, Oxóssi levava apenas uma.
E acertou. Gosto muito desse ensinamento.
Vivemos num tempo em que somos estimulados a fazer cada vez mais, estudar mais, produzir mais, publicar mais. Oxóssi parece lembrar justamente o contrário: uma única flecha bem direcionada vale mais do que dezenas disparadas sem atenção.
Já Ossaim é o senhor das folhas.
É dele um dos provérbios mais conhecidos da tradição iorubá: “Kó si ewé, kó sí Òrìsà” — “Sem folhas, não há Orixá”. As folhas carregam cura, alimento, proteção e axé. São elas que tornam possível grande parte dos rituais e dos cuidados tradicionais.
Existe ainda uma narrativa segundo a qual foi com Ossaim que Oxóssi aprendeu os segredos da floresta. Um busca. O outro ensina. Um encontra. O outro preserva.
Talvez seja por isso que esse encontro me emocione tanto. Sempre digo que não sei cuidar de plantas.
Nunca fui aquela pessoa que enche a casa de vasos e consegue manter tudo florido. Mas, curiosamente, encontro outro jeito de cuidar delas.
Eu as bordo. Não cultivo a planta viva. Cultivo sua memória.
Enquanto uma exsicata inevitavelmente perde parte da cor com o passar dos anos, o bordado preserva aquilo que meus olhos encontraram naquele instante. A folha continua verde. A flor continua aberta. A linha fixa uma memória que o tempo, sozinho, apagaria.
É nesse ponto que sinto minha pesquisa se aproximar desses símbolos.
Oxóssi me lembra a busca. A pesquisa.
A curiosidade de seguir uma trilha até encontrar uma pergunta.
Ossaim me lembra a responsabilidade de guardar aquilo que foi encontrado.
Transformar conhecimento em memória.
Num tempo em que tantas florestas são reduzidas a números, mapas ou recursos naturais, bordar uma planta também pode ser uma forma de resistência.
É dizer que aquela folha não é apenas uma espécie.
Ela tem história. Ela tem beleza. Ela tem memória.
No meu próprio logo escolhi duas plantas: a arruda e o alecrim. Não apenas porque são bonitas.
Mas porque carregam séculos de simbolismo ligados à proteção, ao cuidado e à lembrança. Talvez seja isso que o bordado faça. Ele transforma uma agulha em flecha.
Não para atravessar a floresta. Mas para alcançar a memória antes que ela desapareça.
Que Oxóssi nos inspire a buscar com atenção.
E que Ossaim nos ensine a cuidar daquilo que encontramos.
- SOUZA, João Marcos. OXÓSSI: O HERÓI DE UMA FLECHA SÓ. Revista Mosaico – Revista de História, Goiânia, Brasil, v. 13, p. 57–63, 2020. DOI: 10.18224/mos.v13i0.7553. (Sugestão de leitura aqui)
- BARROS, José Flávio Pessoa de. A floresta sagrada de Ossaim: o segredo das folhas. Rio de Janeiro: Pallas, 2011. (Sugestão de leitura aqui)


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