Quando este espaço nasceu, eu o chamava simplesmente de blog.
Hoje já não tenho tanta certeza de que essa palavra seja suficiente.
Ainda existe um blog, claro! Continuo escrevendo textos, publicando pesquisas, compartilhando descobertas e costurando perguntas que aparecem no caminho. Mas, olhando para tudo o que foi sendo construído ao longo dos últimos meses, percebi que ele acabou se transformando em outra coisa.
Talvez um laboratório. Ou uma oficina.
Um lugar onde ideias são testadas antes de ganharem uma forma definitiva.
Nem todo pensamento que nasce aqui termina como texto, alguns já se tornaram bordados. Outros já se transformam em artigos científicos. Alguns encontraram lugar nas páginas permanentes deste site. Outros simplesmente permanecem como perguntas abertas, esperando o tempo necessário para amadurecer.
Muito em breve a página inicial deste projeto apresentará tudo aquilo que já foi organizado.
O blog mostra justamente o contrário. Ele existe para mostrar o pensamento em movimento.
É aqui que onde as hipóteses aparecem, é aqui que uma observação aparentemente pequena começa a se conectar com outra, é aqui que um artigo científico conversa com um mito, e é aqui que uma memória de infância dialoga com uma pesquisa acadêmica.
Nada disso acontece de forma linear, e acredito que jamais aconteça, visto minhas descobertas recentes e particulares sobre como eu estabeleço pensamentos.
Quanto mais estudo, menos acredito na separação rígida entre ciência, arte, memória, espiritualidade e natureza. Continuo reconhecendo as diferenças entre esses campos e a importância dos métodos próprios de cada um deles. Mas também percebo que as perguntas que faço atravessam todos eles.
Uma folha pode interessar ao botânico, ao artista, ao antropólogo e à bordadeira. Cada um olha para ela de um lugar diferente, e nenhum esgota aquilo que a folha é.
Foi exatamente esse tipo de encontro que começou a acontecer por aqui, mesmo conversando sobre tópicos distintos os textos que escrevo passaram a conversar entre si.
A discussão sobre memória encontrou a Ciência da Informação.
Os ciclos da natureza aproximaram povos indígenas, cosmologias africanas e tradições celtas, não para afirmar que são iguais, mas para reconhecer que diferentes culturas também formularam perguntas muito parecidas sobre o tempo, a vida e o pertencimento.
Percebi então que o Devir Bordado não estava apenas acumulando conteúdo.
Estava construindo uma rede, quase como uma teia de aranha.
Cada página permanente nasce porque um dia houve um texto. Cada texto existe porque antes houve uma pergunta. E cada pergunta abre caminho para outra.
E para mim a função deste espaço passa a ser a de não oferecer respostas prontas, mas sim registrar o percurso.
Por isso, gosto de imaginar o blog como a bancada de uma oficina.
É onde ficam os cadernos abertos, as linhas espalhadas, os livros empilhados, as plantas recém-coletadas, os artigos ainda inacabados e os bordados que ainda estão no bastidor.
Nem tudo o que está aqui permanecerá exatamente como foi escrito. Algumas ideias crescerão, outras serão revistas e isso já acontece.
Algumas provavelmente irão desaparecer completamente. E isso faz parte do processo, bem como a linguagem escolhida para comunicar os textos. Não significa que eu esteja me silenciando ou me policiando, mas apenas escolhendo a melhor versão de criar comunicação de forma clara.
Se existe uma palavra que hoje resume este projeto, ela talvez seja justamente devir.
Não porque tudo precise mudar o tempo todo. Mas porque compreender também é um processo de transformação, e este espaço foi criado exatamente para isso.
Para pensar. Para experimentar. Para compreender e para aprender tanto com os erros quanto com os acertos.
Portanto seguirei documentando os caminhos e não apenas os lugares aonde eles nos levam.

Deixe um comentário