Por que o olho de Hórus nunca está completo?

Você já parou para pensar que até os símbolos mais antigos carregam uma filosofia da imperfeição?

Pois é. O Olho de Hórus, aquele ícone egípcio que todo mundo conhece, tem um segredo matemático fascinante. E ele me ensinou algo que mudou a forma como entendo a busca pela “completude”.

Vamos aos números. Os escribas do Egito Antigo dividiam o olho em seis partes, cada uma com seu valor fracionário:

Soma tudo: 1/2 + 1/4 + 1/8 + 1/16 + 1/32 + 1/64.

O resultado?

63/64 (se lê sessenta e três sessenta e quatro avos, ou seja, os números juntos e avos sem acento, porque não é parente de ninguém).

Falta 1/64 (um sessenta e quatro avos!)

Agora vem a pergunta: por que os egípcios, tão precisos em suas contas, deixariam um símbolo propositalmente incompleto?

Alguns egiptólogos dizem que o 1/64 que falta era a “parte mágica”, aquela que só Thoth, o deus da sabedoria, poderia restaurar. Outros interpretam como a ideia de que nada, no mundo dos humanos, é completamente perfeito.

Eu gosto de pensar diferente.

O 1/64 que falta não é uma falha. É um convite.

Quando Hórus perde o olho na batalha contra Seth, algo se despedaça. Mas Thoth não devolve o olho antigo. Ele cria um novo! Hórus não volta a ser o que era. Ele se torna outra versão de si mesmo, um deus que conhece a perda e, por isso, pode proteger.

O 1/64 que falta é essa transformação. É o pedaço que não volta igual. É o espaço aberto para o novo.

E se a vida fosse assim também?

Quantas vezes a gente se cobra por não estar “completo”? Por ter perdido algo no caminho? Por sentir que falta um pedaço?

Eu mesma passei anos achando que “estar inteira” significava não ter feridas. Até entender que as feridas são o meu 1/64. Elas é que me mantêm em movimento. Sem elas, eu seria uma pessoa estática, pronta, acabada. E acabamento é tédio.

No meu bordado, aprendi isso: o devir é o movimento de quem nunca está pronto. Cada ponto que eu dou é um 1/64 que se transforma mas sempre tem um próximo bordado.

O Olho de Hórus me ensinou que a completude não é um destino. É uma direção.

A gente não precisa ser inteiro. A gente precisa estar em movimento. O 1/64 que falta não é carência. É potência. É o que nos mantém buscando, criando, bordando, vivendo.

E pensando pelo lado de que não vamos levar nada dessa vida, talvez apenas nossa consciência, e isso vem das experiências, aprendizados e laços que formaremos enquanto estivermos aqui, estive refletindo… quem sabe você não descobre que há alguém no mundo que é exatamente o 1/64 que você busca?

Então, quando você vir aquele símbolo numa loja esotérica, não pense só em proteção. Pense: “o que falta em mim é o que me move”.

E o que te move hoje?

  • REFAEY, K. et al. The Eye of Horus: The Connection Between Art, Medicine, and Mythology in Ancient Egypt. Cureus, Palo Alto, v. 11, n. 5, p. e4731, 2019. (Sugestão de leitura aqui)


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