Música, sistemas e frequências

4–6 minutos

Eu sou movida a música.

É uma verdade. Estava analisando as métricas do meu Spotify e percebi que, há vários meses consecutivos, minha média mensal está em torno de 11.700 minutos ouvindo música. Isso representa aproximadamente 195 horas por mês.

Considerando que um mês de 31 dias possui 744 horas, significa que passo cerca de 26% desse tempo ouvindo música. São mais de seis horas por dia.

E esses dados são apenas do Spotify, que é minha principal fonte, mas não é a única.

Enfim… percebeu que música é importante para mim?

A música é, fundamentalmente, uma construção organizada de sons. Ela possui relações, proporções, repetições, intervalos, ritmos e padrões que podem ser estudados, descritos e até representados matematicamente.

No sistema tonal ocidental, por exemplo, trabalhamos com doze classes de altura. A relação entre essas notas não é arbitrária. Desde a Antiguidade, diferentes tradições musicais procuram compreender matematicamente as relações entre os sons. Pitágoras ficou conhecido justamente por seus estudos sobre proporções relacionadas aos intervalos musicais, como a oitava, associada à proporção 2:1, e a quinta, associada à proporção 3:2.

O tempo também pode ser organizado.

Um compasso 4/4, por exemplo, estabelece uma determinada divisão métrica. Um 3/4 estabelece outra. A música cria, portanto, uma espécie de arquitetura temporal, na qual sons aparecem, desaparecem, retornam, se transformam e estabelecem relações entre si.

Talvez seja por isso que eu encontre tanta familiaridade entre música, matemática e programação.

Uma repetição pode funcionar como um padrão. Uma variação modifica esse padrão sem necessariamente destruí-lo. Uma estrutura musical pode retornar depois de um intervalo, sofrer uma transformação e reaparecer diferente.

Quando ouvimos uma música digitalmente, aquilo que parece ser apenas som chegando aos nossos ouvidos passou antes por uma cadeia de transformações. O som é amostrado em intervalos regulares, convertido em valores numéricos e armazenado segundo sistemas digitais de representação.

Aquilo que percebemos como uma experiência contínua pode, portanto, ser descrito por uma sucessão de valores.

É uma coisa estranha quando pensamos nisso.

Uma música pode fazer você chorar, estudar, trabalhar, lembrar de alguém, criar alguma coisa ou simplesmente atravessar uma tarde inteira enquanto você não presta atenção conscientemente em nenhuma dessas estruturas.

E, ainda assim, existe matemática ali.

A própria notação musical conta uma história interessante sobre a tentativa humana de registrar o som. As letras utilizadas para representar notas possuem uma história antiga, enquanto a notação em pauta foi sendo sistematizada ao longo da Idade Média. Guido d’Arezzo teve papel importante nesse processo, contribuindo para a organização da escrita musical que se tornaria fundamental para a tradição ocidental.

E aquela clave de sol que aparece em praticamente todo lugar não está sozinha. Existem também a clave de dó e a clave de fá, pela qual eu tenho um carinho especial.

O sistema de letras também permaneceu vivo em outra forma. As cifras transformaram as letras em uma linguagem prática para representar acordes, especialmente na música popular e entre instrumentos de cordas.

Nós criamos maneiras diferentes de registrar aquilo que ouvimos, mas ouvir continua sendo outra coisa, porque o som não existe apenas como informação. Ele é vibração.

Quando uma fonte sonora produz uma onda, essa perturbação se propaga pelo meio e chega ao nosso sistema auditivo. A frequência dessa onda é medida em Hertz e corresponde ao número de ciclos por segundo.

É aqui que a música começa a encontrar o corpo.

A frequência de 440 Hz, correspondente ao Lá acima do Dó central, tornou-se uma referência amplamente utilizada para a afinação de instrumentos. A padronização dessa referência facilitou a compatibilidade entre instrumentos e conjuntos musicais.

Mas 440 Hz não é uma espécie de frequência universal da natureza capaz de produzir, sozinha, determinados estados de consciência, porque existe uma tendência contemporânea de atribuir propriedades quase mágicas a determinadas frequências, como se cada número possuísse uma capacidade terapêutica específica. A realidade científica é muito mais interessante e também muito mais complexa.

A música realmente pode produzir efeitos fisiológicos mensuráveis.

Pesquisas em musicoterapia e neurociência investigam sua relação com estresse, ansiedade, percepção da dor, atenção, memória, reabilitação e respostas cardiovasculares. O andamento, a intensidade, a previsibilidade, a complexidade e até a familiaridade de uma música podem participar dessa experiência.

Uma música lenta pode favorecer o relaxamento em determinadas circunstâncias. Uma música intensa pode aumentar a sensação de energia e excitação. Uma canção conhecida pode despertar uma memória que parecia esquecida. Uma sequência de acordes pode provocar antecipação porque nosso cérebro reconhece padrões e também porque espera que eles continuem.

Acredito que seja justamente pela capacidade de uma música atravessar tantos sistemas diferentes que faça com que eu nunca consiga ouvi-la apenas como som.

Nota da autora: se você nunca viu uma partitura e ficou curioso para conhecer, vou deixar o acesso para que possa visualizar como uma canção é composta usando inclusive a aplicação de uma clave de fá. Abaixo o som da mesma música para que possa acompanhar.

  • AZEVEDO, L. M. de S.; SILVA, U. P. da; HARTMANN, C.; VIEIRA, F. da S. F. O poder da música para a saúde sob a luz da neurociência. COGNITIONIS Scientific Journal, [S. l.], v. 7, n. 2, p. e424 , 2024. DOI: 10.38087/2595.8801.424. (Sugestão de leitura aqui)
  • Rocha, V. C. da ., & Boggio, P. S.. (2013). A música por uma óptica neurocientífica. Per Musi, (27), 132–140. https://doi.org/10.1590/S1517-75992013000100012 (Sugestão de leitura aqui)


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