Pallas, memória e pensamento

3–5 minutos

Há algum tempo, comecei a estudar astrologia como ferramenta de autoconhecimento. Gosto da astrologia porque ela oferece imagens para pensar sobre nós mesmos, quase como fazem os mitos, o tarô ou a literatura.

Além de olhar para um mapa astral e estudar os planetas e as casas tradicionais, muitos astrólogos também utilizam alguns asteroides na leitura. Um deles é Pallas (ou Palas Atena), o segundo asteroide descoberto no Sistema Solar, batizado em homenagem à deusa grega da sabedoria.

Na mitologia, Atena nasce da cabeça de Zeus, já adulta, montada e armada.

Não é uma deusa ligada apenas ao conhecimento, mas à estratégia, ao planejamento e à capacidade de reconhecer padrões.

Por isso, na linguagem simbólica da astrologia, Pallas costuma representar a forma como organizamos ideias, resolvemos problemas e percebemos relações que nem sempre são evidentes.

Enquanto Mercúrio, por exemplo, costuma ser associado à comunicação e ao aprendizado cotidiano, Pallas fala de uma inteligência mais estrutural.

Ela pergunta como pensamos.

No meu mapa, Pallas está em Peixes, na Casa 4, e em movimento retrógrado.

Independentemente de alguém acreditar ou não em astrologia, achei curioso perceber como essa descrição dialoga com a maneira como construo pensamento e realizo minhas pesquisas.

Peixes costuma ser associado ao pensamento por imagens, metáforas e conexões simbólicas.

Enquanto uma mente mais analítica olhe para um relógio e procure desmontar as engrenagens para compreender seu funcionamento, Peixes olharia o mesmo relógio e perguntaria o que o tempo significa.

Nenhuma abordagem é melhor que a outra, são apenas caminhos diferentes para compreender o mundo. E curiosamente é dessa forma que eu aprendo.

Quando comecei a observar meus próprios interesses, percebi um padrão que caminha por mitologia, bordado, botânica, tarô, memória, patrimônio, Ciência da Informação, tecnologia, sistemas… e por aí vai.

À primeira vista parecem temas muito diferentes, mas quando eu os abordo, todos fazem exatamente a mesma pergunta: como as culturas guardam aquilo que consideram importante?

Talvez seja por isso que o bordado tenha se tornado tão central no meu percurso, porque o bordado não é somente a técnica, mas é aquilo que ela preserva.

Eu construí um pensamento e o estruturei através do bordado como símbolo. Mas eu também consigo formular pensamentos através da simbologia do tarô, mitos amazônicos, Itã na Umbanda. São formas que conversam diretamente com a atuação de peixes.

Continuando a análise de minha Pallas, além da influência de peixes, ela está localizada na casa 4; e na astrologia, esta é a casa que costuma estar relacionada às raízes, à ancestralidade e à memória. É justamente sobre memória que venho trabalhando nos últimos anos.

E continuo pesquisando patrimônio, documentação, cultura material e formas de preservar conhecimentos que atravessam gerações.

Não porque a astrologia tenha determinado esse caminho, mas porque achei interessante perceber que ela oferece uma imagem capaz de descrevê-lo.

E para concluir essa análise, minha Pallas aparece retrógrada. Na leitura astrológica, isso costuma indicar processos que amadurecem primeiro no mundo interior, na intuição e nos pensamentos.

Reconheço isso na minha forma de escrever, visto que raramente um texto nasce no dia em que é publicado. Alguns permanecem semanas, e muito mais comumente meses, sendo tecidos em silêncio.

As conexões aparecem antes das palavras, só que quando finalmente escrevo, tenho a impressão de apenas registrar um desenho que já estava pronto havia algum tempo.

Na pesquisa científica acontece algo parecido, há ideias que exigem anos de observação antes de encontrarem uma forma.

O texto é apenas a última etapa de um processo muito maior.

Por isso me interessei tanto pelo que descobri sobre minha Pallas, não pela promessa de explicar quem eu sou. Mas a possibilidade de oferecer uma metáfora para compreender como penso.

No fim das contas, pouco importa se foi o mapa que descreveu minha forma de olhar para o mundo ou se fui eu quem encontrou, nele, uma imagem capaz de conversar com a minha experiência.

As boas metáforas fazem exatamente isso. Não respondem às perguntas. Elas nos ajudam a formulá-las melhor.

Nota da autora: Se você não gosta de astrologia mas gosta de astronomia, vale explorar as plataformas interativas NASA Eyes on Asteroids e Eyes on the Solar System, que permitem acompanhar em tempo real a posição de milhares de corpos do Sistema Solar. Pallas pertence ao Cinturão Principal de Asteroides, ou seja, está muito distante para ser visualizada nessas ferramentas, porque elas focam em NEO’s (objetos próximos a terra). Mas, antes de se tornar um símbolo na astrologia, Pallas é também um corpo celeste real, orbitando o Sol ao lado de milhares outros. E a mim, interessa tanto a ciência (astronomia), quanto o simbólico (astrologia).


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